Estudo global da ManyChat indica que influenciadores cogitaram abandonar carreira por rotina intensa, falta de reconhecimento, baixa remuneração, pressão por presença online e competição com IA
Metade dos criadores avaliados no levantamento relatou ter pensado em deixar a atividade nos últimos 12 meses, um sinal de desgaste que vai além da falta de público.
Por trás de vídeos curtos e posts rápidos existe uma carga de trabalho que se aproxima, ou mesmo supera, jornadas tradicionais, somada a instabilidade de renda e estigma social.
Os dados e depoimentos a seguir ajudam a explicar por que tantos profissionais chegaram a cogitar parar, conforme informação divulgada pelo g1.
Por que muitos pensaram em desistir
Entre os criadores que pensaram em abandonar a carreira, os motivos apontam para uma combinação de desgaste emocional e frustração profissional, com destaque para: 25% disseram que não estavam crescendo, 23% afirmaram que não ganhavam dinheiro suficiente, 17% relataram perda de motivação ou interesse, 16% disseram que a rotina era demorada demais, 11% apontaram esgotamento criativo.
O relatório mostra que a promessa de autonomia muitas vezes se transforma em cobrança constante, medo do cancelamento e uma sensação de vigilância permanente sobre cada post.
Rotina, reconhecimento e rendimento
O estudo aponta que os criadores usam quase 20 horas por semana apenas com planejamento, gravação e edição, antes de contar tarefas administrativas e negociações com marcas.
Responder comentários e mensagens diretas consome de 2 a 3 horas por semana, e para 5% dos criadores a gestão da caixa de entrada já equivale a um trabalho em tempo integral.
Quanto aos ganhos, quase três em cada quatro criadores ganham menos de US$ 10 mil por ano (o equivalente a R$ 53 mil) com conteúdo, e apenas um em cada 10 ultrapassa os US$ 30 mil anuais. As plataformas respondem por 39% dos pagamentos, enquanto parcerias com marcas e patrocínios representam 28% da receita.
A falta de estrutura profissional fica clara quando se vê que só 14% dos criadores se veem como empresa, 36% como marca e 50% como apenas uma pessoa que posta conteúdo.
Estigma, saúde mental e geração Z
O estigma persiste, com cerca de 31% dos criadores afirmando que as pessoas ainda não veem a criação de conteúdo como um trabalho de verdade. Entre as percepções que mais incomodam estão: 26% que dizem que o público acha que é fácil, 19% que acreditam que não toma tanto tempo, e 12% que ainda ouvem que “criadores são ricos”.
O estudo também destaca que uma em cada quatro pessoas relatou sentir-se esgotada, sobrecarregada ou apática após passar tempo nas redes, e que uma em cada 10 gostaria de fazer uma pausa, mas sente que não pode, por trabalho ou dificuldade de se desconectar.
A situação é mais crítica entre a Geração Z, onde 55% dos criadores cogitaram parar no último ano.
Sobre a complexidade do trabalho, o relatório traz a observação de Monty Lans, citada no texto, na qual aparece a frase: “Ser um criador de conteúdo é muito mais do que gravar um vídeo ou tirar uma foto para postar nas redes sociais. É necessário desenvolver habilidades técnicas e, acima de tudo, ter um desejo genuíno de servir e impactar positivamente um público específico”.
IA, competição e a metodologia do estudo
Para 2026, a principal preocupação apontada pelos criadores é a competição com conteúdo gerado por inteligência artificial. A maioria, no entanto, já planeja usar IA para brainstorm de ideias, escrita de legendas, pesquisa e edição.
Ao mesmo tempo, 41% do público dizem que não apoiariam um criador que se tornasse 100% IA, o que mostra resistência do consumidor apesar do uso crescente da tecnologia.
A pesquisa da ManyChat entrevistou 2.028 pessoas em nível global, sendo 1.000 criadores autodeclarados e 1.028 consumidores diários de redes sociais. O estudo tem nível de confiança de 95% e margem de erro de cerca de 2%, com base em respostas autodeclaradas.
Esses números apontam para um cenário paradoxal, onde a economia dos criadores cresce, mas a rotina, a remuneração e o reconhecimento não acompanham, levando metade dos profissionais a cogitar abandonar a atividade.