Números de 2025 mostram inadimplência acima de 90 dias em 5,17%, concentração no agro e medidas de renegociação que ainda devem gerar melhora lenta, veja por quê
O Banco do Brasil fechou 2025 com lucro líquido de R$ 20,7 bilhões, porém os indicadores de crédito acenderam sinais de atenção entre investidores e analistas.
O tema ganhou repercussão após a divulgação de um calote de R$ 3,6 bilhões no balanço do quarto trimestre, relativo a uma única operação que entrou em atraso, foi regularizada em janeiro de 2026 e depois cedida a terceiros.
Ao mesmo tempo, a inadimplência acima de 90 dias subiu para 5,17% no quarto trimestre, ante 4,51% no trimestre anterior e 3,16% um ano antes, o que reforça preocupações sobre a qualidade do crédito, conforme informação divulgada pelo g1.
Como o calote afetou os índices e a leitura do mercado
O episódio isolado do calote de R$ 3,6 bilhões elevou o índice acima de 90 dias de 4,88% para 5,17%, segundo os dados divulgados. Sem considerar esse evento específico, a taxa teria ficado em 4,88%, mas o registro mostrou maior volatilidade e sensibilidade da carteira a clientes relevantes.
Após o resultado, as ações do Banco do Brasil chegaram a subir mais de 8% na bolsa, e em seguida passaram a operar em queda, chegando a recuar 3,38%, cotadas a R$ 15,15, mostrando reação imediata do mercado às notícias.
Por que o agronegócio pesa na inadimplência do banco
O principal fator por trás da piora na qualidade de crédito foi o agronegócio, cuja inadimplência chegou a 6,1% no quarto trimestre, com alta expressiva em relação ao ano anterior.
O Banco do Brasil é o maior financiador do setor, com carteira agro de R$ 406,1 bilhões, equivalente a 31,3% da carteira total, o que aumenta a exposição quando a atividade rural enfrenta dificuldades, como perdas por eventos climáticos e maior endividamento.
Dados da consultoria RGF mostram que o número de empresas em recuperação judicial no Brasil atingiu recorde, com 5.680 companhias no quarto trimestre de 2025, e que o agronegócio apresenta o maior índice proporcional de recuperações, com 13,53 empresas em recuperação judicial a cada mil ativas, ante média nacional de 2,13.
Medidas do banco e expectativas para a normalização
Para conter atrasos, o BB lançou o programa BB Regulariza Dívidas Agro, que permite renegociar débitos com prazos de até nove anos, e até dezembro foram renegociados R$ 22,6 bilhões com mais de 15 mil produtores.
Mesmo assim, analistas projetam melhora lenta, e o próprio banco estima crescimento modesto da carteira agro em 2026, entre -2% e +2%. O reflexo da piora foi o aumento das provisões, com R$ 10,5 bilhões apenas no agronegócio no quarto trimestre.
O que dizem especialistas
Rodrigo Gallegos, sócio da RGF, afirma, “O que sentimos na pele é que o cliente do agro, diferentemente do varejo, não está acostumado a lidar com essa falta de liquidez súbita. Quando a crise bate, o rombo é fundo e sistêmico”.
Helder Jhones, especialista em investimentos, ressalta, “O calote reportado pelo banco no quarto trimestre afeta os resultados no curto prazo. Porém, como a operação já estava prevista nas contas do banco e foi renegociada, o risco de novas surpresas diminui. O principal ponto de atenção agora é a qualidade dos empréstimos daqui para frente”, diz.
O advogado e especialista em reestruturação Marcos Pelozato alerta para lições de gestão, “Primeiro, a concentração de crédito exige acompanhamento rigoroso, porque um único cliente pode distorcer os números. Segundo, manter reservas adequadas é o que separa um problema controlável de uma crise de confiança. Terceiro, o mercado de crédito no Brasil ainda não voltou à normalidade.”
Ele reforça, “Não vejo um risco generalizado neste momento. O que vejo é um sistema financeiro que ainda está se ajustando após anos de forte crescimento. A leitura correta não é de pânico, mas de atenção redobrada à qualidade dos empréstimos”, conclui.
A análise mostra que, embora o lucro de 2025 seja robusto, a combinação de um evento isolado de calote, juros mais altos, e a pressão no agronegócio e em MPMEs exige acompanhamento próximo da carteira e das provisões no curto e médio prazo.