Detalhes sobre a venda do petróleo venezuelano aos EUA, o depósito em conta internacional e a gestão dos recursos por leilões do Banco Central, conforme as regras anunciadas
O processo iniciado pelos Estados Unidos para comercializar o petróleo venezuelano aumenta exportações e coloca o país sob um esquema de receitas administradas externamente.
As vendas envolvem grandes traders, contas no exterior e um fundo fiduciário no Catar, com parte dos recursos chegando à economia por leilões do Banco Central da Venezuela.
Conforme informação divulgada pelo g1.
Como funciona a venda do petróleo
Depois da prisão de Nicolás Maduro, o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou que seu governo assumiria a comercialização do petróleo venezuelano, dizendo, “O negócio do petróleo na Venezuela tem sido um fracasso”, e afirmando que empresas americanas iriam investir, consertar a infraestrutura e gerar lucro.
O Departamento de Energia dos EUA declarou o início das negociações para vender entre 30 milhões e 50 milhões de barris de petróleo venezuelano, e indicou que o mecanismo seria aplicado de forma indefinida.
Empresas de trading como a Vitol e a Trafigura foram contratadas para comercializar o petróleo, comprando volumes armazenados em navios e oferecendo crude a refinarias na Costa do Golfo dos EUA.
Fontes informaram que essas empresas adquiriram o petróleo a preços cerca de US$ 15 abaixo do Brent e o ofereceram a refinarias por valores entre US$ 8 e US$ 9 abaixo do Brent, mantendo uma diferença histórica que costuma variar entre US$ 5 a US$ 15 por barril.
Para onde vai o dinheiro
As receitas das vendas não entram diretamente no controle do governo venezuelano, mas são depositadas inicialmente em uma conta no banco JP Morgan, e depois transferidas para uma conta no Catar que funciona como um fundo fiduciário sob gestão dos EUA.
Segundo declarações citadas, a primeira venda, em 14 de janeiro, foi avaliada em US$ 500 milhões. O mecanismo foi pensado para evitar que credores venezuelanos reivindiquem os valores se eles fossem colocados em bancos americanos.
O objetivo declarado das autoridades americanas é garantir que as receitas do petróleo venezuelano beneficiem o povo da Venezuela, e não financiem estruturas do passado, conforme depoimento do secretário de Estado Marco Rubio.
Como os fundos chegam à economia venezuelana
Os recursos são distribuídos por meio de leilões do Banco Central da Venezuela, acessíveis por quatro bancos locais, onde empresas e pessoas físicas apresentam propostas indicando quanto dólar precisam e a que preço estão dispostos a comprá-los.
Relatórios de mercado mostraram que até 30 de janeiro os fundos haviam sido alocados da seguinte forma, segundo Alejandro Grisanti, da Ecoanalítica, citado no material: 80% para setores prioritários, como alimentos e medicamentos, 15% para outros setores produtivos e 5% para pessoas físicas.
O sistema, em teoria, exige um orçamento mensal apresentado pelo governo de Delcy Rodríguez, com aprovações prévias dos Estados Unidos sobre usos vetados, e a promessa de que parte dos recursos seria usada para comprar medicamentos e equipamentos diretamente dos EUA.
Transparência, riscos e impacto econômico
Especialistas apontam que a falta de transparência é a maior preocupação, com dúvidas sobre quem aprova a distribuição dos fundos e quais critérios são usados para garantir que o dinheiro vá para comida, combustível, serviços ou salários.
Até o momento, o BCV leiloou aproximadamente US$ 800 milhões por meio do sistema bancário, ritmo que pode chegar a US$ 1,4 bilhão no primeiro trimestre de 2026, se mantido. Também foi estimado que entre US$ 2,5 bilhões e US$ 3 bilhões poderão ser administrados pelo mecanismo, de acordo com declarações citadas.
Analistas dizem que o programa já trouxe efeitos positivos, como maior disponibilidade de moeda estrangeira e um arrefecimento da desvalorização do bolívar, e que, se o dinheiro realmente financiar alimentos, combustível e infraestrutura, pode contribuir para estabilidade e crescimento.
No entanto, especialistas como David L. Goldwyn ressaltam que resta avaliar a eficiência do sistema quando ampliado, e que é cedo para dizer se o modelo será eficaz para estabilizar a economia em volumes maiores.
O debate entre ganhos imediatos de liquidez e a necessidade de auditoria e transparência continua, enquanto o mecanismo que governa a venda do petróleo venezuelano e a gestão das receitas segue sob escrutínio internacional.