EUA vendem petróleo venezuelano e enviam dinheiro ao governo Rodríguez, o petróleo é comercializado por traders globais e as receitas são geridas por um fundo no Catar
A venda do petróleo venezuelano passou a ser conduzida pelas autoridades dos Estados Unidos, que contrataram empresas de comercialização para levar o petróleo ao mercado e controlam a administração das receitas.
O mecanismo envolve armazenamento de cargas, negociação com refinarias da Costa do Golfo dos EUA, e depósito dos recursos em contas sob supervisão externa antes de liberá-los ao governo de Delcy Rodríguez por meio de leilões cambiais.
O processo começou logo após a prisão de Nicolás Maduro e inclui regras para uso dos recursos voltadas a setores como alimentos e medicamentos, mas também levanta dúvidas sobre transparência e escalabilidade.
conforme informação divulgada pelo g1
Como os EUA estão vendendo o petróleo
Nos dias seguintes à captura de Nicolás Maduro, o presidente americano Donald Trump anunciou que os Estados Unidos assumiriam a comercialização do petróleo venezuelano, prometendo trazer “nossas grandes companhias petrolíferas americanas” para recuperar a produção, segundo relato da cobertura original.
Em 6 de janeiro, Trump disse que o governo de Delcy Rodríguez entregaria “entre 30 milhões e 50 milhões de barris de petróleo” aos EUA, quantidade equivalente a cerca de um a dois meses da produção venezuelana nos níveis então vigentes.
O Departamento de Energia dos EUA informou que havia começado a negociar esse volume e que o mecanismo poderia ser aplicado indefinidamente, enquanto a PDVSA confirmou negociações, descrevendo o acordo como “estritamente comercial, com critérios de legalidade, transparência e benefício para ambas as partes”.
Para operacionalizar as vendas, os EUA contrataram grandes traders, identificadas pela imprensa como Vitol e Trafigura, responsáveis por colocar o petróleo no mercado, sobretudo para refinarias na Costa do Golfo dos EUA.
Reportagens indicaram que as empresas adquiriram o petróleo a um preço cerca de “US$ 15 abaixo do custo do barril de petróleo Brent” e o ofereceram a refinarias por um preço entre “US$ 8 e US$ 9 menor que o Brent”, valores que refletem descontos históricos aplicados ao petróleo venezuelano por sua qualidade e às condições de mercado.
Para onde vai o dinheiro, e como ele é gerido
A primeira venda anunciada ocorreu em 14 de janeiro e foi avaliada em “US$ 500 milhões (R$ 2,6 bilhões)”. Esse montante, porém, não ficou sob controle direto das autoridades venezuelanas.
Segundo fontes citadas, o dinheiro foi depositado inicialmente em uma conta do Banco Central da Venezuela no JP Morgan, nos EUA, e transferido para uma conta no Catar, que funciona como um fundo fiduciário, sob gestão envolvendo os EUA e o governo de Rodríguez.
O uso do fundo, explicado por autoridades americanas, serve para evitar que credores venezuelanos reivindiquem valores depositados em bancos dos EUA e para criar uma camada de controle sobre os desembolsos.
As verbas são então liberadas ao sistema financeiro venezuelano por meio de leilões realizados pelo Banco Central da Venezuela, acessíveis a empresas e pessoas físicas por quatro bancos locais, segundo o relato das fontes.
O processo exige que interessados apresentem documentação e ofertas, que são avaliadas pelo BCV, que decide quantos dólares vender, a quem e a que preço.
Quem decide o uso e quais são os critérios
De acordo com análises citadas pela reportagem, até 30 de janeiro os recursos foram distribuídos aproximadamente da seguinte forma, conforme dados e mensagens públicas: 80% para setores prioritários, como alimentos e medicamentos, 15% para outros setores produtivos e 5% para pessoas físicas.
No Senado dos EUA, o secretário de Estado Marco Rubio afirmou que o mecanismo é temporário e que foi criado “para estabilizar o país” e garantir que as receitas “beneficiem o povo venezuelano e não financiem o sistema que existia no passado”.
Rubio também disse que as autoridades venezuelanas têm apresentado orçamentos mensais para justificar gastos, e que parte considerável dos recursos seria usada para comprar medicamentos e equipamentos diretamente dos EUA.
Além disso, foi anunciado que haverá um mecanismo de auditoria posterior, pago com recursos venezuelanos, para verificar como o dinheiro foi efetivamente gasto.
Benefícios, dúvidas e limites do sistema
Analistas ouvidos pela cobertura veem efeitos positivos imediatos, entre eles maior disponibilidade de moeda estrangeira e possível redução de pressões sobre o câmbio e a inflação.
Asdrúbal Oliveros afirmou que o sistema evita pagamentos opacos por intermediários e uso de criptomoedas, e que, até o momento, o BCV leiloou “aproximadamente US$ 800 milhões” por meio do sistema bancário, ritmo que, se mantido, “poderia chegar a US$ 1,4 bilhão no primeiro trimestre de 2026”.
Por outro lado, especialistas destacam problemas de transparência e riscos na ampliação do mecanismo. David L. Goldwyn disse que não está claro “quem aprova a distribuição dos fundos, quais critérios são usados” e que isso gera preocupação sobre fiscalização.
Goldwyn também enfatizou que as vendas iniciais envolveram volumes relativamente pequenos e petróleo armazenado em navios, e que “é muito cedo para saber se este é um sistema eficaz para estabilizar a economia”, ressaltando a necessidade de receitas muito maiores para a recuperação do país.
Marco Rubio alertou que, sem controles, credores poderiam tentar assumir fundos se eles estivem em bancos americanos, justificando a escolha do fundo no Catar para proteger os recursos, segundo as declarações divulgadas.
Rubio também afirmou que a China recebia petróleo venezuelano com desconto, citando que “a China estava recebendo esse petróleo com um enorme desconto de cerca de US$ 20 por barril, e nem sequer pagava em dinheiro”, argumento usado para defender que as vendas aos preços de mercado trazem benefício para a população.
Apesar dos ganhos potenciais, especialistas sugerem aprimorar regras dos leilões, aumentar transparência na definição da taxa de câmbio usada e criar critérios claros para público e empresas participarem, para reduzir riscos de má alocação.
O futuro do mecanismo também depende de sua capacidade de ser ampliado sem perda de controle, e da efetiva aplicação dos recursos em áreas que impactam serviços essenciais, como energia e infraestrutura, o que poderia impulsionar o crescimento econômico.
Em resumo, o arranjo montado pelos EUA para comercializar o petróleo venezuelano e gerir suas receitas representa uma mudança significativa na dinâmica econômica do país, com efeitos imediatos na liquidez e perspectivas de melhora, mas mantendo incertezas sobre transparência, governança e eficiência quando o volume de operações aumentar.