Investigação revela operação que grava mulheres em ruas e casas noturnas, publica conteúdos sem consentimento e recebe milhões de visualizações, segundo apuração
Homens filmam mulheres à noite e lucram na web, com vídeos que muitas vezes exploram saias, vestidos e ângulos baixos, expondo partes íntimas sem o conhecimento das vítimas.
As publicações aparecem em plataformas como YouTube, TikTok, Facebook e Instagram, e acumulam bilhões de visualizações, enquanto as mulheres relatam medo, humilhação e mudanças no comportamento social.
O caso envolve canais que parecem organizar e coordenar gravações noturnas em várias cidades, incluindo Manchester, Londres e Bangkok, e levanta questões legais e éticas sobre privacidade e lucro com imagens de terceiros, conforme informação divulgada pelo g1.
Como a rede atua e quem são os responsáveis
A investigação identificou operadores que filmam nas ruas à noite, muitas vezes fingindo olhar o celular enquanto mantêm câmeras em altura baixa ou próximas ao corpo. Em Manchester, a reportagem observou irmãos que pareciam coordenar as gravações, além de um motorista de táxi e outros homens que gravavam em grupo.
Segundo a apuração, a BBC identificou mais de 65 canais na internet com este tipo de conteúdo. Ao todo, seus vídeos foram visualizados mais de três bilhões de vezes, nos últimos três anos. Miniaturas e títulos deixam claro que o foco é mostrar mulheres em saias e vestidos, gerando um fluxo contínuo de visualizações e comentários misóginos.
Alguns dos canais analisados são associados a nomes públicos e empresas, como o caso de um homem identificado como Florjan Reka, que teria registrado atividade como negócios de influenciador e que teve contas removidas do YouTube após contato da reportagem.
Impacto sobre as vítimas e relatos
Mulheres filmadas afirmam ter sentido medo e vergonha ao descobrir as imagens online. Uma jovem contou que viu o próprio vídeo com mais de três milhões de visualizações, e que desde então evita sair de casa, com a rotina marcada pela paranoia e insegurança.
Os relatos mostram como a exposição tem efeitos práticos na vida social e emocional: muitas deixam de ir a bares e casas noturnas, mudam a forma de se vestir e perdem sensação de segurança em espaços públicos.
Comentários ofensivos e de desumanização são comuns abaixo dos vídeos, ampliando o dano da gravação não autorizada e transformando imagens captadas na rua em conteúdo de entretenimento para outros.
O que diz a lei, especialistas e plataformas
Filmar em espaços públicos não é crime, mas especialistas apontam que esse tipo de conteúdo vive em uma zona legal ambígua. Segundo o material consultado, “Filmar em espaços públicos não é crime, mas um advogado especialista em abusos de imagens afirma que este tipo de vídeo se encontra em uma “zona cinza” da legislação e pode infringir leis de assédio e voyeurismo”.
O advogado Honza Cervenka destacou que “Ele se encontra na linha divisória entre diversos delitos, como o voyeurismo e o assédio, o que ofereceu espaço para seu crescimento e expansão”. Em alguns casos, publicar repetidamente imagens e usar miniaturas que identificam as mulheres pode configurar assédio.
A professora Annabelle Gawer, diretora do Centro de Economia Digital da Universidade de Surrey, alertou para o potencial financeiro do fenômeno, dizendo que “Estamos falando de bilhões de visualizações acumuladas em todo este ecossistema” e que “um vídeo com um milhão de visualizações pode gerar até US$ 6,8 mil (cerca de R$ 35,3 mil)”.
Em termos de atuação das plataformas, depois do contato da reportagem, o YouTube desativou duas contas vinculadas a Florjan Reka, o TikTok eliminou quatro canais, mas diversos vídeos ainda permanecem no Facebook e Instagram, segundo a apuração. Plataformas afirmam revisar conteúdos conforme suas políticas, mas a remoção muitas vezes é tardia ou parcial.
Investigações, respostas oficiais e o caminho a seguir
A polícia local informou que, até o momento, “A polícia não acusou nenhum dos homens investigados pela BBC por nenhum delito”. Em 2024 houve uma detenção em Manchester relacionada a casos similares, mas autoridades recomendaram cautela devido às limitações da legislação vigente.
Autoridades políticas têm reconhecido o problema, e a ministra do Interior do Reino Unido declarou que o governo “não irá tolerar o uso de novas tecnologias para gerar mais violência e assédio contra mulheres e meninas”, segundo reportagens correlatas.
Especialistas defendem ajustes legais e maior atuação das plataformas para impedir a monetização de imagens obtidas sem consentimento, além de mecanismos de denúncia mais rápidos e eficazes, e investimentos em educação sobre consentimento e privacidade nas ruas e na internet.
Enquanto isso, vítimas continuam sem garantia de controle sobre as imagens que circulam, e ativistas pedem que as leis saiam dessa zona cinza, para que práticas que exploram mulheres em espaços públicos deixem de ser lucrativas.
O caso expõe um ponto sensível da economia digital, onde a busca por visualizações pode transformar violações de privacidade em produto rentável, colocando em xeque a proteção das pessoas contra exploração e assédio online.