quinta-feira, junho 4, 2026

Pai na Guiné procura filhos levados por esquema de tráfico de pessoas ligado a falsos recrutadores da QNET, Interpol e polícia de Serra Leoa investigam

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Foday Musa viajou até Makeni em busca dos filhos desaparecidos, denunciados como vítimas de tráfico de pessoas em operação que envolve promessas de emprego no exterior

Foday Musa não vê os filhos há dois anos, e as mensagens que recebeu do filho mais velho o deixaram em sofrimento constante.

A última mensagem de voz tem 76 segundos, o jovem chora e suplica por ajuda, e para o pai, “É muito difícil ouvi-lo. Escutar sua voz dói“.

O caso chegou à Interpol na Guiné e desencadeou operações da unidade de combate ao tráfico em Serra Leoa, numa busca que expõe o modo de atuação dos criminosos e a dificuldade de responsabilizá-los, conforme informação divulgada pelo g1.

A batida em Makeni e a busca por pistas

A investigação levou Musa até Makeni, no centro de Serra Leoa, onde a polícia realizou várias batidas em imóveis usados para manter jovens em cativeiro.

Durante uma operação a polícia encontrou roupas e bolsas espalhadas, e estimou até 10 a 15 pessoas dormindo em cada quarto, muitos com idades próximas a 14 anos.

Mahmou Conteh, chefe de investigações da unidade contra o tráfico de pessoas da Interpol dentro da polícia de Serra Leoa, afirmou que “É muito fácil para esses traficantes atravessar cada uma das nossas fronteiras, nos pontos de cruzamento ilegais“.

Os filhos de Musa não foram encontrados nessa casa, mas um jovem disse que eles estiveram no local na semana anterior, o primeiro possível avistamento em um ano. A polícia levou o grupo para triagem e devolveu 19 pessoas à Guiné.

Como o golpe funciona e relatos das vítimas

O esquema usa promessas de emprego no exterior para recrutar jovens em aldeias remotas, exigindo pagamentos antecipados para taxas e documentos, e depois retendo as pessoas em casas na vizinhança ou em países próximos.

Criada em Hong Kong, a QNET é descrita como “uma empresa legítima, dedicada ao bem-estar e estilo de vida“, mas gangues usam o nome como fachada para o golpe, pedindo valores altos e prometendo voos para destinos como Estados Unidos, Canadá e Emirados Árabes Unidos.

Musa e sua família entregaram aos traficantes US$ 25 mil (cerca de R$ 130 mil), entre quotas de inscrição e pagamentos feitos na tentativa de resgatar os filhos.

Uma das vítimas, identificada como Aminata, relatou que os recrutadores exigiram US$ 1 mil para participar do programa e que, com o tempo, quem não conseguia recrutar outras pessoas era abandonado.

Aminata disse que, para sobreviver, precisou se submeter a abusos, e que “Você precisa vender seu corpo e dormir com homens para conseguir dinheiro e poder se manter“.

Impunidade e números oficiais

Apesar das operações, a punição aos responsáveis é rara. A polícia afirmou ter feito mais de 20 batidas no ano anterior e resgatado centenas de vítimas, mas poucos casos chegam à condenação.

Na avaliação das autoridades locais, faltam recursos e há dificuldades para reunir provas e manter processos efetivos contra as redes transnacionais.

Em relação a condenações, as estatísticas citadas indicam que, “Estatísticas do Departamento de Estado americano indicam que, entre julho de 2022 (quando foi aprovada a lei contra o tráfico de pessoas em Serra Leoa) e abril de 2025, apenas quatro pessoas fora condenadas pelo crime“.

Consequências pessoais e retorno difícil

Musa voltou à Guiné sem os filhos no final de setembro do ano passado, apesar de a polícia afirmar que os traficantes liberaram a filha pouco depois.

A filha voltou para outro local na Guiné e optou por não falar com o pai, em um silêncio que ilustra a vergonha e o estigma sofridos por muitas vítimas.

O paradeiro do filho mais velho permanece desconhecido, e Musa resume seu desejo, dizendo, “Depois de tudo o que enfrentei, só quero que tudo isso termine para que eu possa ver meus filhos“, e “Eu adoraria que eles voltassem agora para a aldeia, adoraria que estivessem aqui comigo“.

O caso mostra a combinação de promessas enganosas, rotas transfronteiriças e fragilidade institucional que alimenta o tráfico de pessoas na África Ocidental, e aponta para a necessidade de investigação coordenada, apoio às vítimas e medidas de prevenção para reduzir novos recrutamentos.

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