Operações em Makeni e investigações da Interpol mostram o funcionamento do tráfico humano associado ao nome QNET, com promessas de emprego nos Estados Unidos, Canadá e Dubai e pagamentos que chegam a US$ 25 mil
Um homem da Guiné viajou até Serra Leoa em busca dos filhos desaparecidos, depois de receber uma mensagem de voz desesperada de um deles, e participou de uma batida policial em Makeni na esperança de encontrá-los.
Familiares, jovens e policiais descrevem um esquema em que recrutadores falsos cobram altas taxas, retêm pessoas em casas superlotadas e pedem que as vítimas recrutem outras para poderem viajar.
O caso e as operações policiais foram relatados na cobertura que deu origem a esta matéria, conforme informação divulgada pelo g1
Busca, batidas e relatos da família
O pai, Foday Musa, recebeu uma mensagem de 76 segundos do filho, que o deixou abalado, e declarou, em relato público, “Meus filhos foram recrutados para um esquema de tráfico humano e me juntei à polícia para tentar encontrá-los”.
Em uma ação coordenada com a Interpol, policiais realizaram uma batida em um imóvel em Makeni, encontrando roupas e bolsas espalhadas, cerca de 10 a 15 pessoas dormindo por quarto e jovens que tinham apenas 14 anos.
O chefe de investigações da unidade contra o tráfico de pessoas da Interpol em Serra Leoa, Mahmou Conteh, afirmou que “É muito fácil para esses traficantes atravessar cada uma das nossas fronteiras, nos pontos de cruzamento ilegais”.
A polícia informou ter realizado “mais de 20 batidas como esta no ano passado, resgatando centenas de vítimas de tráfico de pessoas”.
Como funciona o golpe associado ao nome QNET
O golpe usa o nome da empresa QNET, que é uma organização legítima, como cobertura para recrutar vítimas, com promessas de trabalho no exterior e exigência de pagamentos adiantados.
Famílias como a de Musa disseram ter pago US$ 25 mil (cerca de R$ 130 mil), valor que incluiu taxas de inscrição e quantias pagas na tentativa de garantir o retorno dos filhos.
Vítimas descrevem documentos falsos, fotos enviadas para enganar parentes, números internacionais para contato e a exigência de que, para viajar, a pessoa precisava recrutar outros participantes.
Depoimentos das vítimas
A jovem identificada como Aminata contou que pagou cerca de US$ 1 mil (cerca de R$ 5,2 mil) e foi mantida em um local onde, com o tempo, os custos passaram a ser cobertos por ela de formas abusivas, dizendo que “Você precisa vender seu corpo e dormir com homens para conseguir dinheiro e poder se manter”.
Aminata relatou também que, quando não conseguiu recrutar novas pessoas, deixou de ser útil aos traficantes e acabou voltando para casa, enfrentando estigma e medo por ter fingido estar no exterior.
Segundo relatos apurados, a batida em Makeni levou 19 pessoas de volta para a Guiné, mas o paradeiro de muitos continua incerto, e em alguns casos familiares não retomaram contato, por vergonha ou medo.
Impacto e contexto de impunidade
O fenômeno afeta milhares de pessoas na África ocidental, com vítimas vindas de países como Burkina Faso, Guiné, Mali e Costa do Marfim, e as autoridades têm recursos limitados para investigar e condenar os responsáveis.
No recorte legal citado pela reportagem, “entre julho de 2022 (quando foi aprovada a lei contra o tráfico de pessoas em Serra Leoa) e abril de 2025, apenas quatro pessoas fora condenadas pelo crime.”
O pai entrevistado lamentou a demora e a dor da espera, dizendo que “Meu coração está destruído” e, sobre a mensagem do filho, que “É muito difícil ouvi-lo, Escutar sua voz dói”.
Organizações policiais realizam operações e resgates, mas especialistas e familiares alertam que é preciso ampliar ações preventivas, campanhas de informação e cooperação transnacional para reduzir a atuação de redes que exploram o nome de empresas legítimas e fortalecem a cadeia do tráfico humano.