quinta-feira, junho 4, 2026

Pai da Guiné busca filhos vítimas de tráfico humano, diz ter pago US$ 25 mil e recorreu à Interpol, polícia de Serra Leoa fez batidas em Makeni

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Pai viajou à Serra Leoa para tentar encontrar filhos levados por criminosos que prometiam trabalho no exterior, família pagou US$ 25 mil, operações policiais resgataram centenas

Foday Musa não vê os filhos há mais de dois anos, e guarda uma mensagem de voz que o destrói emocionalmente, em que o filho clama por ajuda.

Ele decidiu viajar até Makeni, em Serra Leoa, e participar de batidas policiais após receber informações que poderiam levar ao paradeiro dos jovens.

O caso e as ações da polícia fazem parte de uma onda de golpes que envolve o uso do nome da QNET para aliciar vítimas na África Ocidental, conforme informação divulgada pelo g1.

Como funciona o esquema de aliciamento

Os criminosos oferecem vagas de emprego em países como Estados Unidos, Canadá, Dubai e na Europa, e pedem pagamentos adiantados para cobrir taxas, passaportes e outras despesas.

Segundo relatos reunidos nas operações, as vítimas são levadas para locais de retenção em países vizinhos ou mantidas em cativeiro internamente, e, muitas vezes, obrigadas a recrutar novas pessoas para só então poderem “viajar”.

A reportagem registra que QNET é uma empresa fundada em Hong Kong, que diz ser legítima e criou uma campanha chamada “QNET contra os golpes” para alertar a população, enquanto gangues usam o nome como fachada para atividades ilícitas.

Operação em Makeni e relatos das vítimas

Durante uma batida em Makeni, a polícia encontrou alojamentos com bolsas e roupas espalhadas, com cerca de 10 a 15 pessoas por quarto, e alguns jovens com apenas 14 anos.

Na ação, a equipe da Interpol reuniu os detidos para triagem e, posteriormente, 19 pessoas foram levadas de volta para a Guiné, enquanto a polícia informou ter realizado mais de 20 batidas no ano anterior, resgatando centenas de vítimas.

Foday Musa participou de uma batida após receber um sinal de que seus filhos haviam estado naquele imóvel na semana anterior, mas não os encontrou. Ele contou que entregou aos traficantes US$ 25 mil (cerca de R$ 130 mil) para tentar garantir as vagas e depois para tentar trazê-los de volta.

Musa descreve sua dor com palavras diretas, ele disse, “Meus filhos foram recrutados para um esquema de tráfico humano e me juntei à polícia para tentar encontrá-los”, e, em outro momento, declarou, “Meu coração está destruído”.

Depoimentos e abusos sofridos

Entre os relatos colhidos, está o de uma jovem identificada como Aminata, que afirmo ter sido convidada por conhecidos a participar de um curso com promessa de voo para os Estados Unidos, mediante pagamento de US$ 1 mil.

Aminata relata que, ao longo do tempo, o cuidado dos recrutadores diminuiu e ela precisou recorrer a práticas degradantes para sobreviver, ela disse, “Você precisa vender seu corpo e dormir com homens para conseguir dinheiro e poder se manter”.

Os traficantes, segundo depoimentos, forneciam passaportes e documentos falsos e instruíam as vítimas a enviar fotos para enganar parentes e amigos, criando a impressão de que já estavam no exterior.

Impunidade e dificuldades das autoridades

A unidade da Interpol em Serra Leoa considera o caso prioritário, e seu chefe de investigações afirmou que “É muito fácil para esses traficantes atravessar cada uma das nossas fronteiras, nos pontos de cruzamento ilegais”.

Apesar das operações, a punição é rara, e as autoridades enfrentam falta de recursos e estruturas para responsabilizar os criminosos em larga escala.

Dados citados indicam que, “entre julho de 2022 (quando foi aprovada a lei contra o tráfico de pessoas em Serra Leoa) e abril de 2025, apenas quatro pessoas fora condenadas pelo crime”.

Em muitos casos, sobreviventes retornam envergonhados e evitam contato com familiares, como ocorreu com a filha de Musa, que voltou à Guiné e preferiu não falar publicamente.

O paradeiro do filho de Musa segue desconhecido, e o pai resume o sofrimento numa frase simples e contundente, “Depois de tudo o que enfrentei, só quero que tudo isso termine para que eu possa ver meus filhos”, ele disse, “Eu adoraria que eles voltassem agora para a aldeia, adoraria que estivessem aqui comigo.”

O caso evidencia o alcance do tráfico humano na região, a utilização de fraudes com falsas oportunidades de trabalho e os desafios para garantir justiça e proteção às vítimas na África Ocidental.

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