quinta-feira, junho 4, 2026

Pai da Guiné busca filhos vítimas de tráfico humano ligado a golpes QNET, operação em Serra Leoa com apoio da Interpol expõe impunidade regional

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Foday Musa viajou a Makeni para tentar localizar dois filhos recrutados por falsos representantes da QNET, caso que revela como o tráfico humano opera na região

Foday Musa não vê os filhos há dois anos, e a última mensagem de voz que recebeu do filho de 22 anos o deixou em prantos, a ponto de dizer, “É muito difícil ouvi-lo, Escutar sua voz dói”, segundo relatos.

Desesperado, Musa viajou a Makeni, em Serra Leoa, e participou de uma batida policial em busca dos jovens, que haviam sido recrutados com a promessa de trabalho no exterior, por supostos representantes da QNET.

O caso chegou à unidade da Interpol em Serra Leoa e tornou-se parte de uma investigação maior sobre redes que exploram pessoas na África ocidental, conforme informação divulgada pelo g1.

A operação e o achado em Makeni

A polícia, com apoio da unidade da Interpol, invadiu um imóvel em Makeni onde foram encontrados grupos de jovens em condições precárias, com bolsas e roupas pelo chão, estimando-se 10 a 15 pessoas por quarto.

Na ação, agentes reuniram dezenas de pessoas e identificaram menores, alguns com apenas 14 anos. Embora os filhos de Musa não estivessem no local, um jovem afirmou que eles haviam passado ali na semana anterior, o primeiro possível avistamento em um ano.

Mahmou Conteh, chefe de investigações da unidade contra o tráfico, alertou que “É muito fácil para esses traficantes atravessar cada uma das nossas fronteiras, nos pontos de cruzamento ilegais”, ressaltando as limitações no controle fronteiriço.

Como funciona o esquema usado pelos traficantes

Na região, gangues se disfarçam usando o nome da empresa QNET para recrutar vítimas, prometendo vagas em países como Estados Unidos, Canadá, Dubai e na Europa, em troca de pagamentos adiantados.

As famílias chegam a pagar valores altos, no caso de Musa foram US$ 25 mil, cerca de R$ 130 mil, incluindo taxas de inscrição e pagamentos extras feitos para tentar trazer os filhos de volta.

A vítima identificada como Aminata relatou que, após pagar cerca de US$ 1 mil para um suposto curso preparatório, a rotina se transformou em exploração. Ela disse, “Você precisa vender seu corpo e dormir com homens para conseguir dinheiro e poder se manter”, descrevendo a pressão e o abuso sofridos.

Impunidade e dados sobre condenações

Os esforços policiais resultaram em mais de 20 batidas no último ano e no resgate de centenas de vítimas, mas a responsabilização ainda é insuficiente, com poucos casos levados à condenação.

Estatísticas do Departamento de Estado americano indicam que, entre julho de 2022 (quando foi aprovada a lei contra o tráfico de pessoas em Serra Leoa) e abril de 2025, apenas quatro pessoas fora condenadas pelo crime.

Autoridades reconhecem recursos limitados e desafios investigativos, o que favorece a continuidade de redes que usam promessas de emprego para praticar tráfico humano na sub-região.

Desfecho parcial e apelo do pai

Musa voltou para a Guiné sem encontrar os filhos, embora a polícia afirme que a filha retornou a outro local do país e não quis falar com o pai, evidenciando a vergonha enfrentada por vítimas.

O filho de Musa permanece desaparecido, e o pai resume seu pedido em palavras simples, “Depois de tudo o que enfrentei, só quero que tudo isso termine para que eu possa ver meus filhos”, enquanto segue a busca por respostas e justiça contra o tráfico humano.

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