quinta-feira, junho 4, 2026

Homem da Guiné que perdeu filhos para golpe ligado à QNET em Serra Leoa relata busca desesperada, pagamento de US$ 25 mil e falhas no combate ao tráfico humano

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Pai viajou a Makeni, participou de batida da polícia e diz que filhos foram recrutados para esquema de tráfico humano, família pagou US$ 25 mil, operação envolveu Interpol

Foday Musa não vê seus filhos há dois anos, e a busca que o levou de sua aldeia na Guiné até Makeni, em Serra Leoa, expõe como redes criminosas usam o nome da QNET para atrair vítimas.

Em fevereiro de 2024, recrutadores prometeram trabalho no exterior ao filho de 22 anos e à filha de 18 de Musa, eles pagaram para participar do programa e acabaram levados para cativeiro em Serra Leoa.

O caso foi acompanhado por uma unidade policial especializada e pela Interpol, e ilustra a extensão do problema do tráfico humano na África ocidental, conforme informação divulgada pelo g1.

A busca e a operação policial

Musa viajou a Makeni em agosto do ano passado depois que a Interpol na Guiné pediu apoio à unidade contra o tráfico de pessoas em Serra Leoa.

Ele participou de uma batida em um imóvel onde, segundo a polícia, havia dezenas de jovens retidos. Bolsas e roupas estavam espalhadas pelo chão, e a equipe encontrou pessoas de 14 anos, além de muitos adultos.

Os filhos de Musa não foram encontrados no imóvel, mas um jovem disse que eles estiveram ali na semana anterior, o que representou o primeiro possível avistamento em um ano.

A polícia realizou mais de 20 batidas como esta no ano passado, segundo relato das autoridades, e afirmou ter detido 12 supostos traficantes durante as operações.

Como o golpe funciona e relatos das vítimas

As gangues prometem vagas em países como Estados Unidos, Canadá, Emirados Árabes Unidos e na Europa, cobrando altas taxas para cobrir supostos custos administrativos.

A QNET existe como empresa legítima, mas criminosos usam seu nome como cobertura. A própria QNET lançou campanhas na região com o slogan “QNET contra os golpes” para tentar alertar a população.

Segundo relatos obtidos pela polícia, os traficantes pedem pagamentos e, depois, mantêm as pessoas em condições precárias, às vezes exigindo que recriem outras vítimas para liberar a viagem.

A vítima identificada como Aminata contou que pagou US$ 1 mil e foi mantida em cativeiro, foi obrigada a “vender seu corpo e dormir com homens para conseguir dinheiro e poder se manter”, e que, para dar aparência de legitimidade, os recrutadores forneciam passaportes e documentos falsos.

Impacto humano e valores entregues aos traficantes

Musa e sua família entregaram aos traficantes US$ 25 mil (cerca de R$ 130 mil), segundo o relato à imprensa. O valor incluiu taxas de inscrição e pagamentos extras na tentativa de trazer os filhos de volta.

O último contato do filho de Musa foi uma mensagem de 76 segundos em que o jovem chora e suplica por ajuda, e Musa diz que “É muito difícil ouvi-lo. Escutar sua voz dói”.

Musa descreve a dor com frases curtas e diretas, “Meu coração está destruído” e repete que só quer ver os filhos novamente.

Contexto de impunidade e desafios para combater o tráfico humano

Embora a polícia de Serra Leoa diga ter resgatado centenas de vítimas em operações, a justiça avança lentamente, e há poucos processos culminando em condenações.

“Entre julho de 2022 (quando foi aprovada a lei contra o tráfico de pessoas em Serra Leoa) e abril de 2025, apenas quatro pessoas fora condenadas pelo crime”, conforme dados citados durante as investigações, evidenciando o problema da impunidade.

As autoridades locais enfrentam recursos limitados, fronteiras porosas e rotas de travessia clandestinas, que, segundo o chefe de investigações Mahmou Conteh, tornam “muito fácil para esses traficantes atravessar cada uma das nossas fronteiras, nos pontos de cruzamento ilegais”.

O desfecho para a família de Musa permanece incerto, a filha voltou a outro local na Guiné e não quis falar com o pai, e o paradeiro do filho ainda é desconhecido, deixando um apelo simples e urgente: que as vítimas retornem e que as autoridades consigam impedir novas redes de exploração.

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