quinta-feira, junho 4, 2026

Pai da Guiné luta para encontrar filhos vítimas de tráfico humano ligado ao golpe QNET na África Ocidental, investigação da Interpol em Serra Leoa busca respostas

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Homem de Faranah viajou a Makeni com apoio de polícia internacional, após filhos de 22 e 18 anos serem recrutados por supostos agentes que prometeram trabalho no exterior

Um pai da Guiné percorreu fronteiras em busca dos filhos desaparecidos, depois de receber uma mensagem de voz em que o filho suplica por ajuda.

O homem ainda não vê os filhos há dois anos, e descreve a dor de ouvir a gravação, na qual o jovem chora por socorro, como insuportável.

Ele acabou participando de batidas coordenadas por uma unidade policial especializada, em operações que envolveram a Interpol em Serra Leoa, na tentativa de localizar as vítimas do esquema.

conforme informação divulgada pelo g1

Como funciona o esquema usado pelos traficantes

O golpe oferece vagas de emprego no exterior, em países como Estados Unidos, Canadá, Emirados Árabes Unidos e na Europa, mediante pagamento adiantado.

Na África Ocidental, gangues criminosas usam o nome da empresa legítima QNET como fachada, embora a própria QNET tenha lançado campanhas com o slogan “QNET contra os golpes” para negar vínculo com os traficantes.

Familiares chegam a pagar grandes somas, e no caso relatado pela família de Foday Musa, foram entregues US$ 25 mil (cerca de R$ 130 mil) para taxas e tentativas de trazer os filhos de volta.

Operação policial e resgates em Serra Leoa

A unidade da Interpol em Serra Leoa conduziu batidas em alojamentos onde vítimas eram mantidas, encontrando quartos com pertences espalhados e entre 10 e 15 pessoas dormindo em cada cômodo.

Em uma das ações em Makeni, agentes reuniram dezenas de jovens e identificaram menores de idade, alguns com apenas 14 anos, e confirmaram que a maioria era da Guiné.

Na operação, 19 pessoas foram devolvidas à Guiné, e as autoridades dizem ter feito mais de 20 batidas no ano passado, resgatando centenas de vítimas.

Mahmou Conteh, chefe de investigações da unidade contra o tráfico de pessoas, afirmou, “É muito fácil para esses traficantes atravessar cada uma das nossas fronteiras, nos pontos de cruzamento ilegais“.

Depoimentos e situações de exploração

Foday Musa descreve a angústia com palavras curtas e diretas, “Meu coração está destruído“, e conta que o último contato com o filho foi uma mensagem de voz de 76 segundos, que o deixou devastado: “É muito difícil ouvi-lo. Escutar sua voz dói“.

Outra vítima, identificada como Aminata, relatou que, depois de pagar US$ 1 mil (cerca de R$ 5,2 mil) para um curso que precederia a viagem, passou a ser explorada dentro do local onde ficou retida.

Ela também contou que, quando faltou dinheiro e apoio, foi informada de que precisava recrutar novas pessoas, e descreveu a violência econômica que sofreu, “Você precisa vender seu corpo e dormir com homens para conseguir dinheiro e poder se manter“.

Contexto de impunidade e desafios para combater o tráfico humano

Apesar das frequentes operações, condenações são raras na região, por falta de recursos e dificuldades legais para responsabilizar redes transnacionais.

Segundo relatório citado, “entre julho de 2022 (quando foi aprovada a lei contra o tráfico de pessoas em Serra Leoa) e abril de 2025, apenas quatro pessoas fora condenadas pelo crime“.

Em muitas ações, a polícia chega a deter suspeitos, e no total informado após batidas acompanhadas pela imprensa, 12 supostos traficantes foram detidos, mas poucos casos evoluem para sentenças.

As vítimas resgatadas vêm de vários países da região, incluindo Burkina Faso, Guiné, Mali e Costa do Marfim, e retornam com marcas de vulnerabilidade, estigma e dificuldades para reinserção social.

Foday Musa não conseguiu encontrar os filhos durante uma das operações e voltou para a Guiné sem eles, embora a polícia tenha afirmado que a filha voltou depois para outro local do país e optou por não falar com o pai.

O paradeiro do filho permanece desconhecido, e o caso ilustra como o tráfico humano aproveita promessas de emprego e a fragilidade econômica para explorar jovens e famílias inteiras, enquanto o combate ao crime enfrenta lacunas que mantêm a impunidade.

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