Da pilha de blocos reaproveitados no leste da África à feira de brinquedos em Londres, a história de Jenga mistura criatividade, dívidas, um nome em suaíli e uma virada inesperada no Canadá
As regras são simples, e o objetivo também, o que não impediu que o jogo se tornasse um sucesso global, com público de todas as idades.
São 54 blocos de madeira, empilhados em grupos de três, retirados e colocados no topo até que a torre caia, momento em que a atração termina, e quem provocou a queda perde.
Essa versão do jogo surgiu há cerca de 40 anos, criada por Leslie Scott, que passou a infância no leste da África, e se consolidou depois de anos de tentativas e de um golpe de sorte em outro país, conforme informação divulgada pelo g1.
A infância em Gana e a ideia que virou jogo
Leslie Scott lembra que a família era competitiva, e que as brincadeiras surgiam em qualquer reunião, por isso o passatempo se transformou em jogo, ela disse ao programa Witness, da BBC, “Somos uma família muito competitiva, no sentido de que, em qualquer reunião, acabávamos jogando algum jogo”.
Na adolescência, a família mudou-se para Gana, e ali o irmão mais novo tinha sobras de madeira de uma serraria, que se tornaram a matéria-prima da ideia inicial.
“Meu irmão, que era bem mais novo, tinha um conjunto de blocos de madeira com os quais brincava. Eram sobras retangulares de uma serraria em Gana”, relatou Scott, descrevendo como começaram a empilhar e a mover os blocos, dando forma à primeira versão do que viria a ser Jenga.
Da caixa de mudanças em Oxford ao primeiro fracasso comercial
Scott levou o jogo ao Reino Unido após terminar os estudos, e mesmo sem intenção de torná-lo o centro das atenções, o jogo chamou atenção em eventos sociais, e ela viu ali um potencial claro.
Decidida a comercializar o produto, fundou uma empresa, procurou empréstimos e contratou uma oficina para fabricar as peças, e em 1983 levou o jogo à Feira do Brinquedo de Londres.
O retorno foi angustiante, ela contou que “achei que estava indo muito bem, mas não recebi nenhum pedido”, e a experiência foi, do ponto de vista comercial, um fiasco, com muitos cartões recolhidos mas nenhuma encomenda.
Nome, insistência e o golpe de sorte que mudou tudo
Mesmo sem demanda inicial, Scott seguiu criando outros jogos para compor um portfólio, e enfrentou dificuldades financeiras, incluindo dívidas crescentes em meados dos anos 1980.
O momento decisivo veio por acaso, quando um conhecido levou o jogo a um shopping no Canadá, e um executivo da Irwin Toy viu o produto, levando-o aos diretores da maior fabricante de brinquedos do país.
A empresa canadense manifestou interesse, mas rejeitou o nome, e Scott não cedeu, ela disse ao celular durante a negociação, “Eu simplesmente disse que não podia permitir que mudassem o nome. Tinha de ser ‘Jenga'”.
O nome, apesar de estranho em inglês, vem do suaíli, e tem relação com palavras da infância de Scott, ela explicou que a mãe tinha um cachorro chamado Kucheza, que em suaíli significa “jogar”, e que “Kujenga” significa “construir”, por isso o nome parecia perfeito para o jogo.
Sucesso global e legado
Com a licença vendida à Irwin Toy, Jenga começou a se espalhar pelo mercado internacional, permitindo que Scott pagasse dívidas e preservasse o patrimônio familiar, ela relatou que conseguiu evitar que a mãe precisasse vender a casa.
Hoje, o jogo figura no National Toy Hall of Fame dos EUA, e já teve, segundo a reportagem, “cerca de 100 milhões de unidades vendidas em todo o mundo”.
Além de Jenga, Leslie Scott passou a se definir como designer de jogos e lançou mais de 40 títulos desde então, consolidando uma carreira que começou com blocos reaproveitados no leste da África e ganhou o mundo.
O caso de Jenga mostra como uma ideia simples, perseverança, e uma defesa firme do próprio nome podem transformar uma brincadeira de família em um fenômeno cultural global.