quinta-feira, junho 4, 2026

Cuidadores de idosos e acompanhantes de saúde aumentam renda extra agendando exames, buscando remédios e acompanhando consultas, mas informalidade e falta de políticas elevam riscos

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Demanda por cuidadores de idosos cresce com envelhecimento e redes familiares menores, profissionais cobram por diárias e usam plataformas, enquanto especialistas alertam para a informalidade

Auxiliares de enfermagem e cuidadores têm ampliado a renda ajudando pacientes de todas as idades a agendar exames, buscar remédios e acompanhar consultas, com trabalhos combinados por aplicativos e contratações muitas vezes informais.

Alguns profissionais já passaram por atendimentos complexos, como permanência em UTI por longos períodos, e relatam ganhos que chegam a superar o salário formal em meses de maior movimento.

As informações acima são baseadas em relatos e dados publicados pela BBC News Brasil, conforme informação divulgada pela BBC News Brasil.

Como funciona o serviço e quanto se ganha

Plataformas e anúncios online aproximam pacientes e acompanhantes, e profissionais deixam claro nos anúncios o que podem ou não realizar. A auxiliar Girlaine relata que, com sua formação no cuidado de idosos, não é necessário ter um curso como acompanhante de saúde ou em áreas relacionadas à enfermagem, segundo seu relato.

A auxiliar de enfermagem Edineusa Matos, 40 anos, trabalha como acompanhante há seis anos na capital e no ABC paulistas, conciliando esse serviço com turno de 12 horas em emprego formal e descansos de 36 horas, o que lhe permite aceitar trabalhos paralelos.

Edineusa informa que ganha R$ 2,6 mil por mês como auxiliar de enfermagem e, com os serviços de acompanhante, em alguns meses chega a faturar mais que no emprego fixo. Ela cobra por diária, de no mínimo de quatro horas: “O mínimo é R$ 130 o dia, dependendo do procedimento. Quando há um esforço maior do meu trabalho, pode chegar a R$ 260”.

Casos e serviços prestados, do acompanhamento à retirada de remédio

Os atendimentos variam de acompanhamento em consultas e exames até suporte em internações. Girlaine lembra, “Já fiquei mais de mês em uma UTI, próximo da finitude do paciente”, mostrando a intensidade que alguns serviços podem exigir.

Edineusa descreve atendimentos que fogem ao óbvio, como levar ao médico a mãe de uma criança autista que tinha medo de dirigir, apesar de ela não costuma funcionar como motorista, e diz: “Ela tinha especificado tudo isso no anúncio na hora de contratar, e o filho dela era autista nível três [considerado o mais grave]. Dirigi para ela e fui com ela ao médico”.

Ela também já retirou remédios de alto custo em posto público e auxiliou paciente com bolsa de nefrostomia, além de acompanhar idoso em hemodiálise aos finais de semana, o que ilustra a amplitude das tarefas solicitadas.

O trabalho de cuidador tradicional consta na Classificação Brasileira de Ocupações como “cuidador de idosos” e “cuidador em saúde”, permitindo contratação com carteira assinada, e o mercado costuma exigir curso de cuidador de idosos com carga mínima de 360 horas.

Para a advogada trabalhista Patrícia Schüler Fava, serviços esporádicos, como acompanhar um paciente em exames, se enquadram como prestação de serviço eventual, sem vínculo empregatício, com pagamento por diária. No entanto, ela alerta que a rotina muda a situação: “Pela legislação, comparecer à residência pelo menos três vezes por semana, mesmo que por poucas horas, já caracteriza a relação como trabalho doméstico”.

Essa distinção é importante porque, quando há relação contínua, surgem obrigações de registro em carteira, controle de jornada e cumprimento dos direitos trabalhistas, o que muitas plataformas e anúncios informais não oferecem.

Por que a demanda aumenta e o que especialistas recomendam

Especialistas apontam que o envelhecimento acelerado e a redução da fecundidade explicam a maior procura por cuidadores de idosos. O demógrafo Márcio Minamiguchi, do IBGE, destaca que a geração atual de 80 anos tende a precisar mais desse tipo de cuidado, porque teve menos filhos e redes familiares reduzidas.

A médica Roberta França afirma, “Envelhecemos em 30 anos o que a Europa levou mais de 100. Mas, diferentemente da Europa, não enriquecemos antes de envelhecer e não nos preparamos para esse processo”, defendendo a profissionalização e maior formação técnica no setor.

A antropóloga Valquíria Renk lembra que muitas famílias não têm condições financeiras para contratar cuidadores profissionais, o que faz o cuidado recair sobre parentes, geralmente mulheres, sem remuneração. Para quem tem recursos, montar equipes multidisciplinares é uma alternativa, mas com custos elevados que muitas vezes não são cobertos pelo sistema público.

Caminhos para reduzir riscos e melhorar a oferta

A Política Nacional do Cuidado, sancionada no final de 2024, reconhece o cuidado como direito universal e responsabilidade compartilhada entre Estado, famílias, sociedade e setor privado, com diretrizes para qualificação e distribuição de responsabilidades.

Especialistas, porém, ressaltam que a política depende de regulamentação, orçamento e implementação para ter efeitos práticos, e que, na prática, muitas famílias continuam sem apoio, cuidando de idosos com doenças graves sem qualquer auxílio.

Profissionais e especialistas consultados defendem mais formação técnica, regras claras nas plataformas digitais e mecanismos que facilitem a formalização, garantindo direitos trabalhistas e segurança para quem presta e para quem recebe o cuidado.

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