Assistentes e acompanhantes informais, incluindo cuidadores de idosos e acompanhantes de saúde, usam plataformas para combinar serviços avulsos, elevam a renda mensal e lidam com direitos trabalhistas frágeis
Auxiliares de enfermagem e cuidadores de idosos estão encontrando novas formas de complementar a renda ao acompanhar pacientes em consultas, exames, retirar medicamentos e prestar apoio em atendimentos hospitalares.
Os serviços costumam ser combinados por aplicativos e redes sociais, com contratação informal e pagamento por diária, e em alguns casos chegam a superar a renda do emprego formal.
O movimento reflete mudanças demográficas e da estrutura familiar no Brasil, e levanta discussões sobre regulamentação, formação e proteção trabalhista, conforme informação divulgada pela BBC News Brasil.
Como funciona a renda extra na prática
Profissionais com formação no cuidado de idosos relatam que não é sempre necessário ter um curso específico para trabalhar como acompanhante de saúde, porque muitos clientes detalham no anúncio o que esperam e os profissionais esclarecem o que podem ou não fazer.
Uma das profissionais, Girlaine, conta que atua com esse tipo de serviço e conseguiu aumentar a renda em 35%.
A auxiliar de enfermagem Edineusa Matos, 40 anos, trabalha em turno de 12 horas e aproveita o descanso de 36 horas para fazer acompanhamentos eventuais, e afirma que hoje recebe novos clientes por indicações e pelas plataformas.
Edineusa ganha R$ 2,6 mil por mês como auxiliar de enfermagem e diz que a renda como acompanhante, em alguns meses, chega a ser maior do que o salário formal. Ela cobra por diária, de no mínimo de quatro horas, “o mínimo é R$ 130 o dia, dependendo do procedimento. Quando há um esforço maior do meu trabalho, pode chegar a R$ 260”.
Os serviços variam de levar pacientes ao médico, buscar remédios, a acompanhar internações longas, e já incluíram casos como retirar remédio de alto custo e ajudar pacientes com dispositivos como bolsa de nefrostomia.
Casos e relatos, do hospital à vida cotidiana
Alguns atendimentos chamam atenção pela complexidade emocional e logística, como acompanhar um filho autista a consultas quando o familiar tem fobia de dirigir, ou passar semanas em unidades de terapia intensiva.
Já fiquei mais de mês em uma UTI, próximo da finitude do paciente, relatou uma profissional sobre esse tipo de trabalho mais intenso.
Esses relatos mostram que o papel do acompanhante pode incluir observação de sintomas e acionamento de ajuda especializada, sem diagnóstico ou prescrição, seguindo os limites profissionais reconhecidos para cuidadores e cuidadores em saúde.
Riscos da informalidade e o enquadramento legal
O trabalho de cuidador tradicional consta na Classificação Brasileira de Ocupações como “cuidador de idosos” e “cuidador em saúde”, o que permite contratação com carteira assinada e obrigações trabalhistas.
Para a advogada trabalhista Patrícia Schüler Fava, serviços esporádicos, como acompanhar consultas, caracterizam prestação de serviço eventual e não geram vínculo empregatício, com pagamento por diária. Porém, quando a prestação vira rotina, o contratante passa a ter obrigações formais.
Pela legislação, comparecer à residência pelo menos três vezes por semana, mesmo que por poucas horas, já caracteriza a relação como trabalho doméstico, explicou a advogada, destacando que a frequência muda a natureza da relação.
No mercado, é comum exigir curso de cuidador de idosos com carga mínima de 360 horas, e ainda não existe um sindicato nacional unificado para a categoria, apenas entidades regionais e sindicatos de categorias próximas.
Uma lei que regulamenta especificamente a profissão de cuidador de idosos tramita atualmente na Câmara dos Deputados, e falta de regulamentação e fiscalização amplia os riscos para trabalhadores e contratantes.
Por que a demanda cresce e o que o país precisa
A maior longevidade e a queda da fecundidade explicam parte da demanda por cuidadores e acompanhantes, segundo especialistas ouvidos pela reportagem.
A médica Roberta França afirmou que “envelhecemos em 30 anos o que a Europa levou mais de 100”, e defende a profissionalização do setor e maior formação técnica para atender esse público.
O demógrafo Márcio Minamiguchi, do IBGE, observa que a geração com cerca de 80 anos hoje tem rede familiar menor, o que abre espaço para profissionais e instituições de longa permanência para idosos.
Ao mesmo tempo, a antropóloga Valquíria Renk ressalta que muitos brasileiros não têm condições financeiras para contratar cuidados profissionais, o que faz com que o trabalho recaia sobre familiares, em geral mulheres, sem remuneração.
O governo aprovou a Política Nacional do Cuidado, e “essa política foi proposta pelo governo federal, aprovada pelo Congresso e sancionada no final de 2024”, com objetivo de reconhecer o cuidado como direito universal e distribuir responsabilidades entre Estado, famílias, sociedade e setor privado, mas especialistas dizem que falta implementação, orçamento e regulamentação para efetivar mudanças.
O cenário aponta para uma demanda crescente por cuidadores de idosos e acompanhantes de saúde, e ao mesmo tempo para a urgência de formas de proteção social, capacitação técnica e caminhos para a formalização, que garantam direitos e qualidade de cuidado para quem precisa.