Por que a busca por cuidadores de idosos cresce, que serviços são oferecidos por aplicativos, quais os riscos da contratação informal e o impacto do envelhecimento acelerado nas famílias
Auxiliares de enfermagem e cuidadores estão ampliando rendas ao oferecer acompanhamento em consultas, exames e retirada de remédios, com contratações informais feitas por plataformas.
O trabalho varia de algumas horas a diárias, e profissionais relatam que clientes descrevem necessidades e que eles mesmos esclarecem limites do serviço antes de aceitar a vaga.
As informações deste texto foram coletadas a partir de reportagem publicada pela BBC News Brasil, conforme informação divulgada pela BBC News Brasil.
Serviços prestados e exemplos na prática
Profissionais como Girlaine e Edineusa fazem acompanhamentos que vão de consultas até internações longas, e combinam tarefas por aplicativos ou indicação pessoal.
Edineusa conta, “Como trabalho como auxiliar de enfermagem em um turno de 12 horas e descanso por 36 horas, muitas vezes consigo fazer esses trabalhos à parte”, e informa que cobra por diária, com mínimo de quatro horas.
Ela diz que “O mínimo é R$ 130 o dia, dependendo do procedimento. Quando há um esforço maior do meu trabalho, pode chegar a R$ 260”, e que sua renda oficial é de R$ 2,6 mil por mês como auxiliar, mas em alguns meses a renda como acompanhante supera o emprego fixo.
Há registros de atendimentos sensíveis, como o de uma mãe com fobia de dirigir, que pediu ajuda para levar o filho autista ao médico. Edineusa relata que, embora não costume ser motorista, fez o percurso em gentileza à cliente.
Informalidade, riscos e limites legais
O trabalho de cuidador tradicional consta na Classificação Brasileira de Ocupações, nas categorias “cuidador de idosos” e “cuidador em saúde”, o que permite contratação formal com carteira assinada.
Na prática, a prestação eventual, como acompanhar alguém em consultas, costuma não gerar vínculo empregatício, e o pagamento é acordado por diária, segundo a advogada trabalhista Patrícia Schüler Fava.
Fava alerta que a situação muda quando a prestação se torna rotina, porque, “Pela legislação, comparecer à residência pelo menos três vezes por semana, mesmo que por poucas horas, já caracteriza a relação como trabalho doméstico”, exigindo registro, controle de jornada e direitos previstos na lei.
Além disso, no mercado é comum exigir curso de cuidador de idosos, com carga mínima de 360 horas, mas a categoria ainda não tem um sindicato nacional unificado, e tramita no Congresso uma lei que regulamenta a profissão de cuidador de idosos.
Por que a demanda aumenta agora
Especialistas apontam duas tendências demográficas que impulsionam a busca por cuidadores de idosos: maior longevidade e queda da fecundidade, o que reduz redes familiares de apoio.
Roberta França avalia que “Envelhecemos em 30 anos o que a Europa levou mais de 100. Mas, diferentemente da Europa, não enriquecemos antes de envelhecer e não nos preparamos para esse processo”, defendendo profissionalização e formação técnica do setor.
O demógrafo Márcio Minamiguchi observa que a geração de cerca de 80 anos demanda mais cuidados por ter tido menos filhos, o que amplia a necessidade de profissionais e de instituições de longa permanência, e pressiona a oferta de mão de obra.
Impactos sociais e caminhos possíveis
A antropóloga Valquíria Renk lembra que muitas famílias não têm condições financeiras de contratar serviços, então o cuidado recai sobre parentes, geralmente mulheres, sem remuneração.
Renk ressalta que a Política Nacional do Cuidado, sancionada no final de 2024, reconhece o cuidado como direito universal, com diretrizes para distribuir responsabilidades entre Estado, famílias e setor privado, mas afirma que a medida ainda depende de regulamentação, orçamento e implementação para produzir efeitos concretos.
Enquanto isso, profissionais usam plataformas para oferecer serviços variados, com ganhos que em alguns casos aumentam a renda em porcentagens significativas, por exemplo, Girlaine relata ter conseguido aumentar a renda em 35% atuando como acompanhante de saúde.
O cenário combina oportunidades de renda extra para cuidadores e auxiliares, com riscos trabalhistas, desafios de qualificação e a necessidade de políticas públicas que deem apoio a famílias e profissionais diante do envelhecimento acelerado.