quinta-feira, junho 4, 2026

Gisèle Pelicot revela que encontrou um novo amor depois do julgamento que condenou Dominique Pelicot e 50 homens, e fala sobre cura, família e visitas à prisão

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Gisèle Pelicot afirma que optar por abrir o julgamento foi um ponto de virada, ela descreve choque, reconstrução familiar e a escolha de seguir em frente com dignidade

Gisèle Pelicot, hoje com 73 anos, conta que percebeu a escala dos crimes do ex-marido quando viu imagens que a mostravam desacordada, e que naquele instante “algo explodiu dentro de mim”, “Foi como um tsunami.”

Após anos de silêncio e de problemas de saúde causados pelos sedativos que recebeu, ela decidiu romper o anonimato e levar o caso a uma audiência pública, uma escolha que ela não se arrepende, segundo relatos.

Hoje, ela diz estar em processo de cura, reconectada com os filhos e em um novo relacionamento, e pretende visitar o ex-marido na prisão para buscar respostas, conforme informação divulgada pelo g1

A descoberta e o impacto imediato

O início da descoberta ocorreu quando um policial mostrou a Pelicot duas imagens de uma mulher desacordada, entre milhares de fotos e vídeos que o marido havia catalogado. Ela relembra que “não me reconheci” ao ver aquelas imagens.

Depois do interrogatório, foi a primeira vez que ela usou a palavra “estupro” para descrever o que havia sofrido. A polícia informou que ela havia sido repetidamente estuprada por dezenas de homens, e que o marido filmava e rotulava esses crimes.

Em 2011 ela começou a sofrer perda de memória e problemas de saúde, mais tarde atribuídos aos sedativos e relaxantes musculares que recebeu sem saber, e que a deixavam sem dor, mas vulnerável durante as agressões.

O julgamento, a decisão de abrir a audiência e a repercussão

Pela lei francesa, Gisèle tinha direito a um julgamento a portas fechadas e ao anonimato, mas, caminhando na praia, ela decidiu que a audiência deveria ser pública. Ela afirma que foi uma decisão tomada em uma noite e que “Nunca me arrependi da minha decisão, nem por uma vez”.

O julgamento durou quatro meses e, segundo a vítima, a presença das câmeras e das mulheres que foram apoiá-la fora do tribunal lhe deu uma “força inacreditável”. A atitude de Pelicot, segundo relatos, inspirou outras vítimas a buscarem visibilidade para seus casos.

Os sete juízes consideraram todos os réus culpados. Dominique Pelicot recebeu a pena máxima de 20 anos de prisão, e os outros 50 homens foram condenados a períodos que variaram de cinco a 15 anos.

Consequências para a família

As revelações causaram um impacto profundo na família. Ao telefonar para os três filhos para contar o que havia descoberto, Gisèle lembra que foi um dos momentos mais difíceis de sua vida, e descreve a reação de Caroline, “Ouvi minha filha gritar. Era quase desumano”.

Os filhos reagiram cortando laços com os pertences do pai, e a relação entre mãe e filha chegou a ficar abalada durante o processo. Gisèle relata que “levou muito tempo para nos reconstruirmos” e que hoje procura restaurar a relação com Caroline, buscando paz para ambas.

A família também teve que lidar com investigações adicionais, como a tentativa de estupro reconhecida pelo ex-marido em 2022, e a suspeita de envolvimento de Dominique em um homicídio de 1991, situação que Gisèle diz temer, pois seria “mais uma descida ao inferno”.

Reconstrução, memórias e novo relacionamento

Pelicot publicou memórias intituladas “Um Hino à Vida”, pela editora Cia. das Letras, que serão lançadas no Brasil no final de fevereiro. Na obra e em entrevistas, ela reafirma que, apesar da traição e da violência, não quer apagar metade da própria vida.

Em 2023, em Île de Ré, ela conheceu Jean-Loup, e descreve o relacionamento como uma surpresa que trouxe “muito colorido” para sua vida. Sobre o futuro, comenta que pretende visitar o ex-marido na prisão para olhar nos olhos e buscar respostas, mesmo reconhecendo que talvez nunca as obtenha.

Para Gisèle Pelicot, resta a certeza de que é preciso escolher um caminho, e que ela optou por “andar na direção do bem”. A trajetória que começou com aquele primeiro choque evoluiu para uma busca pública por justiça, um processo de cura e a reconstrução de laços familiares, e é marcada por episódios que ela define com termos como “julgamento da covardia” e pela convicção de que sua exposição ajudou outras vítimas a não se silenciarem.

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