quinta-feira, junho 4, 2026

Pressão de Trump e militarização ampliam divisões na Europa, forçam aumento de gastos, criam coalizões com Japão e Coreia e reacendem debate sobre autonomia estratégica

Share

Pressão de Trump e militarização pressionam líderes europeus a avaliar se as alianças tradicionais bastam ou se é preciso formar coalizões com Japão, Coreia, Austrália e outros parceiros

Europa em tensão, com governos e eleitores divididos sobre como responder a uma conjuntura geopolítica mais agressiva, em que a Rússia e a China pressionam a leste, e os Estados Unidos mostram sinais de imprevisibilidade a oeste.

O debate ganhou corpo na Conferência de Segurança de Munique, evento que reuniu autoridades, militares e indústria de defesa e deixou expostas fissuras entre países que querem fortalecer a Otan e outros que preferem parcerias sob medida.

O cenário também chega ao cidadão comum, que sente a necessidade de mais proteção e medidas práticas de precaução, conforme informação divulgada pelo g1.

Percepção pública e medidas práticas

Pesquisas apontam o grau de apreensão, com mais de dois terços dos europeus, 68%, considerando que o país em que vivem está sob ameaça, segundo levantamento do Eurobarometer mencionado pela reportagem do g1.

No plano prático, o Escritório Federal de Proteção Civil e Assistência a Desastres da Alemanha recomendou que os alemães mantenham em casa alimentos estocados para três a dez dias, uma orientação inédita desde a Guerra Fria.

Ao mesmo tempo, imagens e campanhas com a frase “A segurança da Europa está em construção” deixam evidente a tentativa de normalizar medidas de defesa que antes seriam impensáveis em países como a Alemanha.

Pressão dos EUA, discursos e respostas europeias

O governo dos EUA, sob a administração Trump, aumentou a pressão para que a Europa invista mais em defesa, e a retórica americana tem sido percebida como mais ameaçadora do que a de antecessores.

No evento de Munique, o secretário de Estado Marco Rubio declarou, “Queremos que a Europa seja forte”, e lembrou que “As duas grandes guerras do século passado servem para nós como um lembrete constante de que, no fim das contas, nosso destino está, e sempre estará, entrelaçado com o de vocês”, palavras que buscaram acalmar, mas também condicionaram o apoio americano a valores e alinhamentos.

A reação europeia variou entre alívio e desconfiança. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, afirmou que “Algumas linhas foram cruzadas e não podem mais ser descruzadas”, refletindo a percepção de que atos recentes abalaram a confiança transatlântica.

Rearmamento, divisões internas e novas coalizões

A Alemanha anunciou um investimento sem precedentes em defesa, de 150 bilhões de euros, valor que Mark Rutte descreveu como “uma quantia impressionante”, segundo relatos citados pelo g1.

Apesar disso, a Europa não é homogênea, e analistas identificam uma divisão nítida entre países do norte e leste, mais próximos da Rússia e mais dispostos a elevar gastos, e países do sul, como a Espanha, relutantes em sacrificar políticas sociais por aumentos no orçamento militar.

Como resposta à imprevisibilidade, surgem coalizões menores, que reúnem Estados com interesses e valores afins, incluindo parceiros do Indo-Pacífico, como Japão, Coreia do Sul, Austrália e Nova Zelândia, além de colaborações entre Reino Unido, França, Canadá e países nórdicos e bálticos.

O que líderes e especialistas dizem sobre o futuro

Do lado europeu, o ministro da Defesa da Alemanha, Boris Pistorius, resumiu a sensação de ruptura ao afirmar, “Nós nos acostumamos ao forte apoio dos EUA; nos acostumamos à nossa zona de conforto na qual costumávamos viver, Esse tempo acabou, definitivamente acabou, Washington estava certa”, segundo registro do g1.

Nos EUA, conselheiros de defesa foram diretos ao afirmar que a prioridade volta a ser o hemisfério americano. Elbridge Colby declarou que, “Sob a liderança do presidente Trump, estamos priorizando de novo a defesa de nosso território e a proteção de nossos interesses em nosso hemisfério”, e avisou que a presença militar americana na Europa será mais limitada e focada.

Enquanto isso, líderes como o primeiro-ministro britânico Keir Starmer propõem maior integração entre Reino Unido e Europa para reduzir custos e ganhar escala, ao passo que França e Alemanha tentam equilibrar ambições de autonomia estratégica com dependências tecnológicas e nucleares dos EUA.

O resultado é uma Europa que acelera rearmamento e experimenta novas formas de cooperação, ao mesmo tempo em que enfrenta tensões internas sobre prioridades orçamentárias e sobre até que ponto confiar no tradicional guarda-chuva americano.

Leia Mais

Fique por dentro