quinta-feira, junho 4, 2026

Pressão de Trump e militarização na Europa dividem aliados, forçam gasto de 150 bilhões de euros e aumentam temor de 68% dos europeus

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Com os EUA mais imprevisíveis e Alemanha anunciando 150 bilhões de euros em defesa, a militarização na Europa gera dúvidas sobre a Otan, estimula coalizões sob medida e altera o mapa de alianças

A Europa vive um momento de rápida reconfiguração das suas políticas de segurança, com governos divididos entre reforçar a Otan e buscar novas parcerias fora do continente.

Cidadãos e líderes se sentem mais expostos, e decisões recentes mostram que a velha dependência do apoio americano está sendo questionada.

Conforme informação divulgada pelo g1

Pressão dos EUA e reação europeia

O tom adotado pelo governo Trump acentuou a percepção de risco em capitais europeias e deixou marcas profundas nas relações transatlânticas.

A crise em torno da Groenlândia, as ameaças tarifárias e episódios como a suspensão temporária do compartilhamento de inteligência com as forças ucranianas, geraram desconfiança e inquietação entre aliados.

Na Conferência de Segurança de Munique, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, buscou um tom de reconciliação ao afirmar, “Queremos que a Europa seja forte”, mas condicionou a parceria a convergências em valores e políticas, provocando reações mistas entre líderes europeus.

O ministro da Defesa da Alemanha, Boris Pistorius, resumiu a mudança de clima ao dizer, “Nós nos acostumamos ao forte apoio dos EUA; nos acostumamos à nossa zona de conforto na qual costumávamos viver, Esse tempo acabou, definitivamente acabou. Washington estava certa.”

Dados e sinais de alerta

As pesquisas já mostram o impacto dessa nova realidade, com mais de dois terços dos europeus (68%) indicando que sentem seu país sob ameaça.

Medidas práticas também aparecem, como o alerta do Escritório Federal de Proteção Civil e Assistência a Desastres da Alemanha, que afirmou, pela primeira vez desde a Guerra Fria, que uma guerra já não é “improvável”, e recomendou que os alemães mantenham em casa alimentos estocados para três a dez dias.

O aumento dos orçamentos de defesa ilustra a resposta concreta a esse clima de insegurança, com a Alemanha anunciando, segundo Mark Rutte, um pacote de 150 bilhões de euros, descrito pelo secretário-geral da Otan como “uma quantia impressionante”.

Divisões internas e novos agrupamentos

A discussão entre os próprios europeus revela rachas sobre como agir, e a militarização na Europa não tem resposta única.

De um lado estão países nórdicos, bálticos, Alemanha e Holanda, que elevam gastos e se preparam para capacidades convencionais. Do outro estão nações do sul europeu, como Espanha, reticentes em aceitar aumentos orçamentários em meio a pressões econômicas internas.

Para lidar com a imprevisibilidade americana, surgem coalizões sob medida, que reúnem nações com afinidades políticas e interesses estratégicos, incluindo atores fora da Europa, como Austrália, Coreia do Sul, Japão e Canadá.

Exemplos práticos incluem a chamada Coalition of the Willing, liderada por Reino Unido e França para proteger a soberania da Ucrânia, e iniciativas regionais do Canadá com países nórdicos e bálticos para reforçar a dissuasão no Atlântico Norte e no Ártico.

Limites da autonomia europeia e desafios tecnológicos

Embora o discurso sobre autonomia estratégica ganhe força, várias fragilidades permanecem, tanto em tecnologia quanto em dependência de capacidades americanas, como o guarda-chuva nuclear e o compartilhamento de inteligência.

O presidente francês, Emmanuel Macron, e a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, destacaram a necessidade de reduzir riscos em energia, cadeias de suprimento e tecnologia, e von der Leyen advertiu, “Algumas linhas foram cruzadas e não podem mais ser descruzadas”.

Analistas avisam que a Europa tem entre cinco e dez anos para desenvolver capacidades convencionais suficientes para atuar com mais autonomia, e que isso exigirá escolhas difíceis sobre gastos públicos e prioridades políticas.

O que muda para as alianças

Representantes dos EUA, como Elbridge Colby, traçaram a nova ambição americana de priorizar o hemisfério, ao afirmar, “Sob a liderança do presidente Trump, estamos priorizando de novo a defesa de nosso território e a proteção de nossos interesses em nosso hemisfério”, e defenderam uma presença militar americana mais limitada e focada na Europa.

Essa postura empurra governos europeus a repensarem a Otan, a buscar parcerias flexíveis e a investir em tecnologias como inteligência artificial, drones e sistemas aeroespaciais, para reduzir brechas estratégicas.

No curto prazo, a militarização na Europa tende a aprofundar divisões políticas internas e a acelerar a cooperação entre países que compartilham ameaças e valores, enquanto no médio prazo pode reconfigurar a ordem de segurança ocidental.

O resultado ainda é incerto, e a capacidade dos governos de traduzir a sensação de risco em políticas sustentáveis será decisiva para a estabilidade do continente.

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