quinta-feira, junho 4, 2026

Jornada de trabalho de quatro dias na Holanda, como empresas passaram para 32 horas semanais sem reduzir salários e quais os riscos para a produtividade

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Empresas adotam a jornada de trabalho de quatro dias, mantendo 32 horas semanais sem corte salarial, e o país debate se o modelo é sustentável diante da estagnação da produtividade

A Holanda vem implementando, de forma discreta, a jornada de trabalho de quatro dias em empresas pequenas e grandes, sem reduzir salários e mantendo a carga em 32 horas semanais.

Empresas que fizeram a mudança relatam queda nas licenças médicas, aumento da retenção e melhor equilíbrio entre vida pessoal e trabalho, mas especialistas alertam para limites econômicos.

O relato e os dados reunidos nesta reportagem seguem, conforme informação divulgada pelo g1.

Como funciona na prática

Na Positivity Branding, em Amsterdã, os sócios Gavin Arm e Bert de Wit adotaram a semana de quatro dias em 2019, mantendo oito horas por dia e 32 horas semanais, sem cortar salários.

Arm resume a decisão com uma motivação pessoal, ao afirmar, “Seus filhos só são pequenos uma vez”.

De Wit, ao explicar a mudança, diz que “trata-se de trabalhar de forma mais inteligente, não mais intensa”.

Efeitos sentidos por empresas e trabalhadores

Para a diretora de gestão de pessoas da Nmbrs, Marieke Pepers, tirar a sexta-feira de folga trouxe benefícios, “Ninguém espera nada de mim nesse dia, eu me inspiro, fico melhor e a empresa também”.

Pepers afirma que, desde a adoção, “as licenças médicas diminuíram e a retenção aumentou”. A empresa enfrentou ceticismo inicial, e teve de reduzir reuniões e priorizar tarefas.

Dados, produtividade e o alerta da OCDE

A Holanda registra 32,1 horas por semana, a menor carga horária da União Europeia, bem abaixo da média do bloco, de 36 horas.

Ao mesmo tempo, o país tem um dos maiores PIBs per capita da Europa, desafiando a ideia de que jornadas longas são necessárias para riqueza, mas gerando perguntas sobre sustentabilidade.

Daniela Glocker, economista responsável pela Holanda na OCDE, observa, “É verdade que a Holanda tem alta produtividade e trabalha menos”, e acrescenta, “Mas o que vimos nos últimos 15 anos é que ela [a produtividade] não cresceu”.

Outro economista da OCDE, Nicolas Gonne, questiona, “Os holandeses são ricos e trabalham menos, mas a questão é: isso é sustentável?”.

Desafios demográficos, mercado de trabalho e desigualdade de gênero

A Holanda tem a maior proporção de trabalhadores em tempo parcial entre os países da OCDE, quase metade dos empregados trabalha menos que a jornada integral.

Uma análise governamental aponta que 3 em cada 4 mulheres e 1 em cada 4 homens trabalham menos de 35 horas por semana, e o acesso a creches a preços acessíveis influencia a disponibilidade para jornadas maiores.

Peter Hein van Mulligen, do Escritório Central de Estatísticas da Holanda, fala em “conservadorismo institucionalizado” que atua como barreira à participação feminina em tempo integral.

Um estudo de 2024 mostrou que “1 em cada 3 holandeses considera que mães com filhos pequenos não deveriam trabalhar mais do que um dia por semana, e quase 80% afirmam que três dias semanais seriam o máximo”.

Para sindicatos, como a FNV, a normalização da semana de quatro dias pode reduzir desigualdades e manter mais pessoas no mercado de trabalho, e Yvette Becker afirma que “Há ganho de produtividade com menor absenteísmo”.

Conclusão: benefícios claros, limites e decisões políticas

O case holandês mostra ganhos concretos em bem-estar, retenção e redução de faltas, mas também revela um dilema macroeconômico, entre manter qualidade de vida e enfrentar a necessidade de crescer produtividade ou ampliar a oferta de trabalho.

Se a Holanda quiser sustentar os níveis atuais de bem-estar, terá de decidir entre políticas que incentivem maior participação no mercado, como creches e impostos diferentes, ou medidas para elevar a produtividade por hora trabalhada.

No fim, a adoção da jornada de trabalho de quatro dias sinaliza uma mudança cultural profunda, que combina escolhas empresariais, pressões demográficas e debates sobre o papel do Estado em equilibrar tempo livre e prosperidade.

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