A adoção da jornada de trabalho de quatro dias na Holanda combina 32,1 horas semanais e alto PIB per capita, mas economistas da OCDE apontam limites e riscos à produtividade
A Holanda vem reduzindo discretamente a jornada de trabalho para uma semana de quatro dias em muitas empresas, mantendo a carga em 32 horas semanais sem cortes salariais em diversos casos.
Empresas que adotaram a medida relatam queda nas licenças médicas, maior retenção de funcionários e ganhos de bem-estar, enquanto economistas da OCDE questionam a sustentabilidade do modelo para a economia em longo prazo.
Veja a seguir como o modelo tem sido implementado, quais dados apontam vantagens e quais são as principais preocupações, conforme informação divulgada pelo g1
Como empresas e trabalhadores descrevem a jornada de trabalho de quatro dias
Na prática, pequenas e grandes empresas na Holanda experimentaram formatos variados da jornada de trabalho de quatro dias, frequentemente sem redução salarial e mantendo 32 horas por semana, ou oito horas por dia.
Proprietários e funcionários destacam a prioridade ao equilíbrio entre vida pessoal e trabalho, e relatam mudanças culturais internas para tornar o tempo de trabalho mais eficiente.
Gavin Arm, cofundador da Positivity Branding, resume a motivação pessoal, dizendo que seus filhos não voltarão a ser pequenos no futuro, e que evitar perder momentos em família foi determinante para a adoção da medida.
Para Bert de Wit, do mesmo escritório, a lógica foi clara, trata-se de trabalhar de forma mais inteligente, não mais intensa, e a empresa afirma que não houve redução de salário para os funcionários afetados.
Gestores de recursos humanos também relatam ganhos práticos. Marieke Pepers, diretora de gestão de pessoas da Nmbrs, afirma que tirou a sexta-feira de folga e, com isso, as licenças médicas diminuíram e a retenção aumentou, embora no começo tenha sido preciso convencer investidores e ajustar prioridades e agendas.
Dados e comparações: menos horas, alta renda per capita e sinais de estagnação
Os números mostram que os holandeses trabalham, em média, 32,1 horas por semana, a menor carga horária da União Europeia, bem abaixo da média do bloco, de 36 horas por semana.
Ao mesmo tempo, o país mantém um dos maiores PIBs per capita da Europa, o que desafia a ideia de que jornadas longas são pré-condição para riqueza.
No entanto, a OCDE chama atenção para limites desse sucesso. Daniela Glocker, economista responsável pela Holanda na OCDE, afirma, “É verdade que a Holanda tem alta produtividade e trabalha menos” e acrescenta, “Mas o que vimos nos últimos 15 anos é que ela [a produtividade] não cresceu.”
Esse ponto é central para o debate, porque manter qualidade de vida com menos horas depende de ganhos contínuos de produtividade por hora ou de ampliar a oferta de trabalho na economia.
Desafios demográficos, participação no mercado e gênero
A Holanda enfrenta fatores que podem pressionar o modelo, como o envelhecimento da população, o que reduz a proporção de pessoas ativas no mercado de trabalho e aumenta a necessidade de mais produção por trabalhador.
Outro desafio é a alta proporção de trabalho em regime parcial, a maior entre países da OCDE, com quase metade dos empregados trabalhando menos que a jornada integral.
Em termos de gênero, uma análise do governo indica que 3 em cada 4 mulheres e 1 em cada 4 homens trabalham menos de 35 horas por semana, e um estudo de 2024 revelou posições culturais sobre o papel das mães, apontando que 1 em cada 3 holandeses considera que mães com filhos pequenos (de até três anos) não deveriam trabalhar mais do que um dia por semana, e quase 80% afirmam que três dias semanais seriam o máximo.
Especialistas da OCDE, como Nicolas Gonne, alertam que há um limite prático para a economia sustentar um modelo com menos horas por trabalhador, e que a solução pode passar por aumentar a participação de pessoas no mercado de trabalho, inclusive com mais imigração, ou por elevar a produtividade por hora trabalhada.
Possíveis lições e limites para outros países
Os defensores da semana de quatro dias, incluindo sindicatos como o FNV, argumentam que a medida pode reduzir desigualdades, aumentar a energia no trabalho e tornar profissões pouco atrativas mais competitivas, por exemplo na educação e na saúde.
Na experiência holandesa, empresas que reduziram a jornada precisaram rever prioridades, cortar reuniões e focar em resultados, mostrando que a mudança exige transformação cultural e operacional, não apenas reduzir dias na agenda.
Ao analisar se modelos semelhantes funcionariam em outros países, é preciso considerar diferenças demográficas, fiscais e de oferta de serviços como creches, além de pressão sobre produtividade e estruturas de tributação, fatores que influenciam a decisão de trabalhar mais horas.
Em resumo, a experiência da Holanda com a jornada de trabalho de quatro dias oferece exemplos práticos de ganhos em bem-estar e retenção, mas também expõe desafios para manter o crescimento econômico sem mais horas de trabalho, e levanta a questão sobre como equilibrar tempo livre e produção em sociedades envelhecidas.