quinta-feira, junho 4, 2026

Cuba vive racionamento de combustível mais severo em décadas, risco de ‘combustível zero’, apagões e cortes que já afetam transporte, escolas e alimentação

Share

Nova fase do racionamento de combustível em Cuba, com cortes de luz de até 18 horas, limitação de vendas para uso essencial e preparação do plano ‘opção zero’ para enfrentar escassez

A ilha enfrenta uma crise de energia e combustível que se agravou desde meados de 2024, e, em 2026, ameaça entrar em um cenário de emergência ainda mais duro.

O presidente Miguel Díaz-Canel declarou, em 5 de fevereiro, “Vamos viver tempos difíceis”, ao anunciar um plano extraordinário de economia de energia e restrições no uso de combustível.

As medidas chegam em meio a pressões internacionais, cortes de fornecimento e incidentes locais, e prometem alterar a rotina de transporte, trabalho e escolas nas próximas semanas, conforme informação divulgada pelo g1.

Como a crise chegou ao ponto atual

O agravamento tem causas múltiplas, entre elas problemas crônicos na geração de eletricidade, usinas termoelétricas obsoletas e falta de divisas para comprar combustível no mercado internacional.

No plano internacional, após a captura do então presidente venezuelano Nicolás Maduro em Caracas, no dia 3 de janeiro, os Estados Unidos adotaram medidas que dificultaram o acesso da ilha a petróleo estrangeiro, segundo relato do g1.

Entre essas ações, o governo norte-americano anunciou ameaças de tarifas a países que vendessem óleo para Cuba, e passou a pressionar para reduzir envios da Venezuela e do México, embora o México tenha afirmado que seguirá enviando ajuda humanitária.

Além disso, um incêndio em uma refinaria de petróleo em Havana complicou ainda mais a logística de combustíveis, e a origem do fogo ainda está sendo investigada.

Rotina alterada, criatividade e retorno a práticas do passado

Nas ruas, muitos já se adaptam, e a cocção com carvão e lenha voltou a ser comum, como lembra uma moradora que organiza uma cozinha para três famílias do bairro.

Usuários locais descrevem métodos improvisados, e uma criadora de conteúdo no TikTok explicou como cozinhar com lenha e lavar roupas nos rios, dizendo, na tradução do que publicou, “Sei que você vai me dizer que a cozinha a lenha é muito rica […], mas não é fácil, meu amor, precisar se empenhar todo dia para cozinhar com carvão, lenha, ver sua casa cheia de fuligem e você sufocando com a fumaça”.

Relatos indicam cortes de eletricidade que chegaram a, em algumas ocasiões recentes, até 18 horas, e a mobilidade foi reduzida com menos carros nas avenidas principais, o que demonstra o impacto imediato do racionamento de combustível na vida cotidiana.

Impacto econômico, desigualdade e despesas domésticas

O efeito é desigual, porque parte da população recebe remessas do exterior ou trabalha por conta própria, mas muitos vivem com salários muito baixos.

Segundo dados citados no relato, o salário mensal médio é de 6.830 pesos cubanos (US$ 14 pelo câmbio informal, cerca de R$ 73), e preços básicos tornam a vida mais difícil, por exemplo, uma garrafa de óleo custa cerca de US$ 2,50 (R$ 13) e uma caixa com 30 ovos, quase US$ 6 (R$ 31).

Essa pressão nos orçamentos alimenta insegurança e restrições de acesso a bens essenciais, e pode agravar as diferenças entre quem tem moeda estrangeira e quem depende apenas da renda local.

Memórias do Período Especial e cenários políticos

A atual situação remete ao chamado Período Especial dos anos 1990, depois da queda da União Soviética, quando Cuba enfrentou racionamento extremo e apagões prolongados.

O governo resgatou o conceito de “opção zero”, plano de sobrevivência adotado naqueles anos para um cenário de “zero petróleo”.

O professor Michael Bustamante, da Universidade de Miami, destaca que “Entre 1991 e 1994, o PIB desabou em mais de um terço”, e que “Da pandemia para cá, calcula-se uma deterioração de cerca de 11%”, mostrando que a magnitude atual é diferente, mas o impacto ainda é severo devido à fragilidade pré-existente.

Bustamante também observa que, após recentes reformas econômicas, há mais desigualdade interna, porque quem tem acesso a lojas privadas bem abastecidas ou remessas do exterior sofre menos com as faltas.

Ajuda internacional e incertezas sobre o futuro

O México enviou dois navios com pouco mais de 800 toneladas de suprimentos alimentares, e anunciou que mais 1.500 toneladas de alimentos serão enviadas em carregamentos futuros, conforme divulgado pelas autoridades mexicanas e noticiado pelo g1.

Há menções públicas a possíveis envios de combustível pela Rússia, segundo jornais internacionais, e o governo brasileiro avalia enviar ajuda humanitária como remédios e alimentos, embora detalhes sobre volumes e datas ainda não tenham sido definidos.

Entre a população, há apreensão e medo do que pode vir pela frente, mas também atitudes práticas de adaptação, como acumular água, armazenar lanternas e reduzir deslocamentos, enquanto autoridades tentam equilibrar medidas de austeridade e evitar uma crise humanitária ampla.

O desfecho dependerá de decisões externas e internas, da disponibilidade de fornecedores alternativos e da capacidade do governo cubano de manter serviços essenciais, em um cenário em que o racionamento de combustível e os apagões já estão mudando o cotidiano de milhões de pessoas.

Leia Mais

Fique por dentro