Cuba se prepara para um cenário de ‘combustível zero’, com cortes de energia de até 18 horas, racionamento de combustível em Cuba e população voltando a cozinhar com lenha e carvão
O país vive o que autoridades descrevem como o pior racionamento de combustível em décadas, com medidas que limitam transporte, produção e serviços essenciais.
Nas ruas e nas casas, famílias já retomam métodos do passado, como cozinhar com carvão e lenha, enquanto o governo aplica um plano de economia para evitar um colapso mais profundo.
Informações sobre a situação foram compiladas, conforme informação divulgada pelo g1.
Causas políticas e logísticas do racionamento
O racionamento de combustível em Cuba, segundo autoridades e analistas, tem causas múltiplas. As restrições impostas pelos Estados Unidos após a captura do então presidente venezuelano Nicolás Maduro em Caracas no dia 3 de janeiro e as ameaças de tarifas e sanções complicaram o acesso da ilha a embarques de petróleo.
Além do aperto político, houve um incêndio em uma refinaria em Havana, cuja causa está sendo investigada, e problemas crônicos no parque de geração elétrica, com usinas termoelétricas obsoletas e falta de divisas para importar combustível.
Em seu discurso no último dia 5, o presidente Miguel Díaz-Canel disse, “Vamos viver tempos difíceis”, ao anunciar medidas de racionamento e uma versão moderna da antiga “opção zero”, criada na década de 1990 para enfrentar um cenário de escassez extrema de petróleo.
Como o racionamento de combustível em Cuba afeta o cotidiano
O impacto já é sentido no dia a dia. Houve cortes de eletricidade de até 18 horas nas últimas semanas, relatados por moradores que comparam a situação ao Período Especial dos anos 1990.
Moradoras contam que, como alternativa, “cozinhamos com carvão e lenha para 3 famílias na vizinhança”, e outras explicam que precisam acumular água, lanternas, ventiladores e carregadores portáteis, para enfrentar longos períodos sem luz.
O racionamento de combustível em Cuba também reduz o tráfego nas grandes avenidas, e estudantes deixam de ir a exames por falta de transporte. Uma mãe relata que seu filho de nove anos enfrenta aulas sem energia e tem dificuldade para estudar em casa.
Os efeitos são desiguais, porque parte da população conta com remessas do exterior ou trabalho por conta própria, enquanto muitas famílias sobrevivem com um salário médio de 6.830 pesos cubanos, “US$ 14 pelo câmbio informal, cerca de R$ 73”, segundo dados do Escritório Nacional de Estatísticas e Informações de Cuba de novembro.
Os preços básicos pressionam ainda mais a renda, por exemplo, “uma garrafa de óleo custa cerca de US$ 2,50 (R$ 13) e uma caixa com 30 ovos, quase US$ 6 (R$ 31)”, segundo relatos de moradores.
Medidas do governo e respostas internacionais
O plano anunciado pelo governo prevê racionamento na venda de combustíveis, priorização do uso para atividades econômicas imprescindíveis, serviços essenciais e incentivo ao trabalho a distância, além de aulas semipresenciais nas universidades.
O governo diz estar disposto ao diálogo com os Estados Unidos, com as palavras do presidente Díaz-Canel, “Cuba está disposta a um diálogo com os Estados Unidos sobre qualquer assunto”, e, ao mesmo tempo, deixa claro que não aceitará “sem pressões” as conversas com Washington.
Externamente, o México enviou ajuda humanitária, com dois navios carregados com pouco mais de 800 toneladas de suprimentos alimentares, e prometeu mais 1.500 toneladas em futuros carregamentos, conforme informações do governo mexicano. A presidente Claudia Sheinbaum não afirmou se continuará enviando petróleo, limitando-se a falar em alimentos e suprimentos essenciais.
Há também menções a acordos com parceiros como a Rússia, com manchetes dizendo que “Rússia vai mandar petróleo para Cuba, diz jornal russo”, e negociações em curso para evitar que a ilha fique sem fornecimento.
Riscos, memória histórica e perspectivas
Muitos cubanos lembram do Período Especial, após o fim da União Soviética, quando o país enfrentou racionamento extremo e cortes prolongados. Analistas, como o professor Michael Bustamante, da Universidade de Miami, apontam que o colapso atual é menor em termos percentuais que o de 1991 a 1994, quando o PIB caiu em mais de um terço, mas notam que a economia já partia de uma situação frágil.
Para parcela da população, a sensação é que a crise é mais grave hoje, por causa de desigualdades internas e da dependência de quem não tem acesso a remessas. A pergunta que permanece é se as medidas externas visam forçar uma mudança política, ou se o governo conseguirá administrar a escassez até uma estabilização.
Enquanto isso, a população se prepara para cortes mais longos e adapta rotinas, recorrendo a lenha, carvão e métodos de sobrevivência que marcaram gerações anteriores, em um cenário em que o racionamento de combustível em Cuba passa a ser a principal vacina contra um apagão generalizado.
Os desdobramentos dependem de decisões internacionais e da capacidade do governo de obter combustíveis e divisas, além de medidas emergenciais para proteger a população mais vulnerável, conforme informação divulgada pelo g1.