Somalilândia: A Nação Autoproclamada que Israel Reconhece, Mas o Mundo Ignora
A Somalilândia, um território do tamanho da Nicarágua com cerca de 3,5 milhões de habitantes, vive uma situação diplomática peculiar. Declarou sua independência da Somália em 1991 e, desde então, opera como um país autônomo, com instituições próprias, moeda e passaportes. Recentemente, o reconhecimento de Israel como nação soberana agitou o cenário internacional, gerando reações diversas.
O presidente da Somalilândia, Abdirahman Mohamed Abdullahi, descreveu o anúncio de Israel como um “momento histórico”. Contudo, a decisão foi prontamente condenada por ministros das Relações Exteriores da Somália, Egito, Turquia e Djibuti, que expressaram sua “rejeição total” ao gesto israelense.
Esse reconhecimento, se seguido por outras nações, poderia fortalecer a posição diplomática da Somalilândia e ampliar seu acesso aos mercados globais. A história deste território de 137.600 km², considerado uma “anomalia” no instável Chifre da África, é marcada por lutas e anseios por autodeterminação, conforme divulgado pelo g1.
Origens e a União Lamentada
A região que hoje é a Somalilândia foi um protetorado britânico até sua independência em 26 de junho de 1960. No entanto, essa autonomia foi efêmera. Apenas cinco dias depois, o território se fundiu com a Somalilândia Italiana, recém-independente, formando a República da Somália. Essa união, porém, foi motivo de arrependimento para muitos somalilandeses logo após sua concretização.
As divergências com as regiões do sul do novo país emergiram rapidamente. Em 1961, um referendo para uma nova Constituição foi amplamente rejeitado pelos somalilandeses, mas o texto foi aprovado e se tornou a lei fundamental da jovem república.
Menos de uma década depois, o país mergulhou em instabilidade política. Em 1967, Abdirashid Ali Shermarke foi eleito presidente e nomeou Mohamed Haji Ibrahim Egal como primeiro-ministro. Dois anos mais tarde, o presidente foi assassinado em um golpe liderado pelo General Mohamed Siad Barre, que assumiu o poder e transformou a Somália na República Democrática da Somália.
O Regime de Siad Barre e a Luta pela Sobrevivência
O governo de Siad Barre intensificou o descontentamento na Somalilândia e alimentou o desejo de separação. O líder militar marxista-leninista gerou insatisfação em todo o país, desencadeando uma revolução. Barre, em suas próprias palavras, prometeu no final da década de 1980 que “deixarei prédios, mas não pessoas”.
Um relatório da ONU, publicado no início dos anos 2000, concluiu que o governo somali cometeu “o crime de genocídio” contra o povo Isaaq entre 1987 e 1989. Durante esse período, a força aérea somali bombardeou Hargeisa, a capital da autoproclamada República da Somalilândia, resultando na morte de milhares de civis e na destruição parcial da cidade.
Após anos de conflito sangrento, Siad Barre foi deposto em 1991, evento que culminou em uma guerra civil e na subsequente declaração unilateral de independência pela Somalilândia.
A Falta de Reconhecimento Internacional e a Comparação com Taiwan
Mais de trinta anos após sua declaração de independência, a Somalilândia funciona como um Estado soberano de fato, possuindo seu próprio sistema político, parlamento, força policial, bandeira, moeda e emitindo passaportes. No entanto, a falta de reconhecimento internacional é um obstáculo significativo.
A crise diplomática com a Somália se acentuou após um acordo em janeiro de 2024 entre a Etiópia e a Somalilândia, que concede à Etiópia acesso ao mar pelo porto de Berbera. Mogadíscio, capital da Somália, denunciou o acordo como uma violação de sua soberania, considerando a Somalilândia parte inseparável do país.
O caso da Somalilândia é frequentemente comparado ao de Taiwan. Ambos são territórios que se declararam independentes de vizinhos maiores (Somália e China, respectivamente) e que funcionam como Estados plenamente funcionais. Hargeisa e Taipei fortaleceram seus laços diplomáticos em 2020, provocando a reação de seus vizinhos.
Um Oásis de Estabilidade em Meio ao Caos
Além da questão política, a Somalilândia se destaca por sua relativa estabilidade em comparação com o resto da Somália. Especialistas a consideram um exemplo de democracia na região, com eleições disputadas e resultados respeitados, mesmo quando a oposição vence.
Apesar da pobreza generalizada e do alto desemprego, Hargeisa é uma das cidades mais seguras da região. A jornalista da BBC, Mary Harper, descreveu em 2016 a “paz e estabilidade relativas” da Somalilândia, contrastando sua segurança com a necessidade de escoltas armadas na Somália continental.
Essa paz é atribuída aos esforços da Somalilândia desde a década de 1990, com o envolvimento de anciãos locais que atuaram como mediadores, reunindo comunidades e formando um governo de partilha de poder, conforme explica o jornalista somali Farhan Jimale.
A Perspectiva da Somália
A Somália, por sua vez, considera a Somalilândia parte integrante do país. Embora negociações de paz tenham ocorrido nos últimos 10 anos, a integridade territorial é inegociável para Mogadíscio. O governo federal somali reconhece a Somalilândia como uma região com autoridades locais desenvolvidas.
Enquanto o governo federal somali tem consolidado seu controle em algumas áreas, grupos islamistas como o Al-Shabaab continuam sendo uma ameaça ativa. A persistência da crise de segurança na Somália pode alimentar a luta pela independência da Somalilândia.
A decisão final sobre a independência da Somalilândia, assim como ocorreu com a secessão do Sudão do Sul, provavelmente dependerá de um processo de negociação e aceitação por parte de Mogadíscio, após um eventual referendo, conforme aponta Jimale.