Julgamento do STF pode consolidar regras sobre o que é indenização e pôr fim aos penduricalhos que elevam contracheques muito além do teto, com impactos orçamentários e políticos
O plenário do Supremo Tribunal Federal avalia hoje se ratifica a liminar do ministro Flávio Dino que suspendeu pagamentos extras classificados como indenização, e que têm levado contracheques de parte do funcionalismo a superar com folga o teto constitucional.
A decisão chega após uma sequência de medidas e reações no país, e pode forçar o Congresso a regulamentar, em lei, quais verbas podem ou não furar o teto salarial dos servidores públicos.
As informações e dados a seguir foram levantados e publicados pelo g1, conforme informação divulgada pelo g1.
O que está em jogo no julgamento e os argumentos centrais
Se a liminar de Flávio Dino for mantida pelo plenário, como alertou Bruno Carazza, professor associado da Fundação Dom Cabral, “Caso seja ratificada, o Congresso Nacional vai receber então um comando do Supremo de regulamentar o dispositivo na Constituição que estabelece qual é o tipo de pagamento que pode superar o teto do serviço público brasileiro”. A discussão parte da interpretação da Constituição, que fixa o teto em R$ 46.366,19, e de um dispositivo que isenta indenizações desse limite, mas que vem sendo ampliado como exceção.
Em defesa das práticas, associações da magistratura e do Ministério Público citam defasagem salarial, aumento da demanda de trabalho e decisões administrativas que teriam amparo legal. Enquanto isso, autoridades do Poder Judiciário e do Legislativo se reúnem para formular uma transição, e alguns magistrados já ameaçam paralisações ou greve caso os pagamentos sejam suspensos.
Cinco exemplos de penduricalhos que estão em xeque
Um conjunto de pagamentos hoje classificados como indenizações tem sido usado como atalho para aumentar rendimentos, segundo especialistas. Entre os mecanismos mais apontados estão a chamada licença compensatória, que dá um dia de folga a cada três dias de acúmulo de função, com possibilidade de conversão em pagamento, criando uma remuneração adicional além do vencimento e da gratificação pelo acúmulo.
Outro ponto comum é a venda de férias, ao permitir que magistrados e membros do Ministério Público convertam até 20 dias por ano em pagamento, além de receber o adicional de um terço de férias em dobro. Em nota técnica, Carazza estimou que a indenização por férias não gozadas custou R$ 1,5 bilhão em 2023, e que o adicional de férias representou R$ 5,3 bilhões no mesmo ano.
Há também auxílios elevados, como auxílio-alimentação e auxílio-saúde, com médias muito superiores às práticas do setor privado. Em alguns tribunais, o auxílio-alimentação chegou a média de R$ 4.184,55, e o auxílio-saúde alcançou média de R$ 11.601,21 em determinados TJs, conforme levantamentos citados pela reportagem.
Pagamentos retroativos, muitas vezes reconhecidos por decisões administrativas, também representam uma fatia relevante das exceções ao teto, com custo estimado em R$ 3,1 bilhões em 2023, segundo a mesma análise. Finalmente, os honorários de sucumbência, que antes iam à parte vencedora, passaram a ser destinados a advogados públicos após mudanças no Código de Processo Civil, gerando pagamento de R$ 4,7 bilhões em 2025, e beneficiando alguns servidores com valores individuais muito elevados, como o caso de uma servidora que recebeu R$ 708 mil naquele ano, o que equivale a uma média extra de R$ 59 mil por mês.
Impacto fiscal e exemplos numéricos para dimensionar o problema
Os números reunidos mostram que, para uma minoria do funcionalismo, os chamados penduricalhos têm efeito substancial. Em 2025, o ganho médio líquido de um magistrado da ativa foi calculado em R$ 81,5 mil por mês, “76% acima do teto salarial do serviço público”, segundo o levantamento citado por g1. No Tribunal de Justiça de São Paulo, a média dos magistrados da ativa chegou a R$ 122,8 mil, “165% acima do limite constitucional”.
Esses valores têm peso orçamentário e simbólico, porque afetam a percepção pública sobre equidade no serviço público e pressão por revisão de prioridades orçamentárias. Autoridades que defendem a manutenção dos pagamentos citam acúmulo de funções e necessidade de atrair e reter carreiras especializadas, enquanto críticos pedem o resgate da autoridade do teto e fim de brechas que permitam a multiplicação de exceções.
Próximos passos, riscos e cenários possíveis
Na prática, se o STF ratificar a liminar, o Congresso deverá ser acionado para regulamentar, em lei, o que de fato configura indenização, limitando a criação administrativa de novos benefícios. Em fevereiro, ocorreram decisões e movimentos relevantes, entre eles a ordem de revisão das bases legais das verbas pelo ministro Flávio Dino em 5 de fevereiro, o veto presidencial a propostas no Congresso em 18 de fevereiro, a proibição de novas leis que furassem o teto em 19 de fevereiro, e a determinação de Gilmar Mendes em 23 de fevereiro sobre pagamento de verbas só por previsão legal, além de uma reunião de presidentes e ministros em 24 de fevereiro para discutir regra de transição.
O desfecho pode levar a um ajuste legal que reduza despesas consideradas exceção, mas também pode provocar reação de carreiras jurídicas, incluindo ameaças de paralisação. Como resumiu Bruno Carazza, para muitos, “Precisamos resgatar a autoridade do teto remuneratório no serviço público brasileiro e coibir a criatividade desses órgãos que ficam criando pagamentos sem previsão legal”.
Se a corte decidir por restringir as exceções, o tema deve gerar proposta de lei e intenso debate político e social sobre compensações, transição e a forma de remunerar o serviço público sem permitir distorções que, segundo críticos, corroem a confiança pública.