Análise da tensão entre EUA e Irã, impactos sobre o dólar, preços do petróleo e mercados globais, com avaliações de especialistas e cenários de curto prazo
A escalada de ameaças entre Washington e Teerã tem levado agentes do mercado a recalibrar posições, buscando proteção e revisando riscos de oferta de energia.
Investidores tendem a migrar para ativos considerados mais seguros, enquanto preços do petróleo reagem a qualquer possibilidade de interrupção nas rotas de transporte.
O cenário e os potenciais efeitos sobre câmbio, commodities e ações foram detalhados por analistas, conforme informação divulgada pelo g1.
Dólar, proteção e o “flight to quality”
Em momentos de tensão geopolítica, o dólar costuma se valorizar porque funciona como um ativo de proteção, com grande liquidez e facilidade de negociação.
Como destacou a reportagem, “É o que chamamos de ‘flight to quality’ (voo para a qualidade), movimento que tradicionalmente ocorre em momentos de guerra”, diz o estrategista-chefe da Avenue, William Alves.
Além disso, o risco de um bloqueio no Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do comércio mundial de petróleo, contribui para a busca por moeda segura, embora especialistas considerem esse bloqueio pouco provável, “já que os EUA mantêm forças militares para proteger a região. Mas o risco sempre existe”, afirma Alves.
Petróleo, oferta e a janela para alta
O Irã é um dos grandes produtores de petróleo, e qualquer ataque ou bloqueio que afete instalações ou a passagem de navios pode reduzir a oferta e pressionar preços.
Analistas ouvidos pelo g1 lembram que o mercado começa a precificar riscos de danos às estruturas de produção sempre que há tensão entre países produtores, e que isso pode elevar a cotação do barril.
Para Gabriel Mollo, analista da Daycoval Corretora, uma interrupção na passagem de navios pelo Estreito “pode levar o barril de petróleo para a faixa de US$ 80. Hoje, está em torno de US$ 70”.
Ao mesmo tempo, há fatores que podem conter a alta no curto prazo, como o excesso de oferta global e as restrições já impostas às vendas iranianas, o que reduz a magnitude do choque esperado.
Bolsas e o recuo em ativos de risco
Em geral, riscos militares e incerteza sobre o fornecimento de energia tendem a reduzir a disposição dos investidores a apostar em ativos mais arriscados, levando a quedas em bolsas globais.
O estrategista William Alves ressalta que ativos de risco, incluindo ações e investimentos em mercados emergentes, “tendem a reagir mal a eventos como uma guerra”, especialmente se houver alta do petróleo e pressão por juros crescentes.
Se o conflito for limitado e rápido, os efeitos podem se provar temporários, mas uma escalada ou retaliações na região, como ataques a instalações de energia, poderiam provocar oscilações mais intensas e rever projeções de lucro em setores específicos.
Por que o mercado não espera guerra prolongada
Apesar das ameaças, especialistas consultados pelo g1 não antecipam um conflito prolongado de grande escala entre EUA e Irã, o que modera, em parte, pressões de longo prazo sobre preços e mercados.
Como disse o analista da Suno Research, Malek Zein, “Há, naturalmente, a questão do aumento da demanda. Mas, por outro lado, o Irã já é um país fortemente sancionado, e um eventual conflito não deve gerar o mesmo impacto que a guerra entre a Rússia e a Ucrânia, por exemplo”.
No curto prazo, investidores devem acompanhar movimentos de liquidez, preços do petróleo e sinais de escalada militar, lembrando que uma intervenção direta dos EUA ainda não é o cenário mais provável, embora não esteja descartada.