O pagamento estimado em R$ 51 bilhões pelo FGC após a liquidação do Master, Will Bank e Banco Pleno revela fragilidades no modelo de garantia, pressiona recomposição e tende a encarecer crédito
O colapso do Banco Master e das instituições ligadas ao grupo gerou uma onda de insegurança entre investidores e expôs pontos frágeis do mecanismo de proteção financeira do país.
Milhares de clientes precisaram acionar o Fundo Garantidor de Créditos, o FGC, para recuperar aplicações, enquanto o fundo precisará recompor recursos que foram bastante drenados nos últimos meses.
Os números e relatos sobre atrasos e perdas mostram que a garantia do FGC tem limites, e que o custo da recomposição pode recair sobre toda a economia, conforme informação divulgada pelo g1.
Por que a garantia do FGC não foi, de fato, uma proteção absoluta
O FGC garante a devolução de até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ em cada grupo financeiro, e há um limite total de R$ 1 milhão a cada quatro anos, somando valor aplicado e rendimentos até a data da liquidação ou falência.
Apesar disso, especialistas ouvidos pelo g1 apontam que a garantia passou a ser usada como argumento de venda por bancos e corretoras, reduzindo a percepção de risco entre investidores menos experientes. A economista Ione Amorim, do Instituto de Defesa do Consumidor, afirmou, “O FGC foi apresentado como garantia absoluta para atrair investidores menos experientes. Todo investimento envolve risco, mesmo com a proteção do fundo, e isso, pelo visto, nem sempre foi explicado de forma clara pelas corretoras”.
Ofertas com rendimento acima do mercado, como CDBs que chegaram a pagar até 140% do CDI, atraíram clientes que entenderam que tinham segurança total, apesar do risco implícito nessas taxas mais altas.
O impacto sobre investidores: atraso, perda de oportunidade e confiança abalada
Cerca de 800 mil investidores têm direito à garantia do FGC apenas por causa do Banco Master, e a soma das liquidações do Master, Will Bank e Banco Pleno deve levar o fundo a pagar cerca de R$ 51 bilhões, segundo dados levantados pelo g1.
O FGC informou que já desembolsou R$ 37,2 bilhões, e que 653 mil credores do Master receberam os valores, o que representa 84% dos beneficiários, dados que mostram esforço de pagamento, mas também a dimensão da operação.
Clientes relataram meses de espera entre a liquidação e o ressarcimento, com perda de rendimento real em muitos casos. “Demorou, mas deu certo. Depois que liberaram o pedido de ressarcimento, o dinheiro caiu na conta em quatro dias. Mas, desde a liquidação do banco, foram meses de espera”, afirmou Alexandre Gonçalves, investidor afetado.
Para o advogado Roberto Panucci, especialista em direito bancário, “Um título que, no papel, prometia rendimento acima do CDI pode, após meses de espera, render muito pouco ou até gerar perda real, quando se considera a inflação e o tempo em que o dinheiro ficou parado”.
Como será a recomposição do FGC e quais as consequências para bancos e consumidores
Antes das liquidações, o FGC tinha mais de R$ 140 bilhões em caixa. Agora, será preciso recompor parte significativa desses recursos, por meio de medidas que o próprio fundo e reguladores estudam implementar.
Entre as alternativas em discussão estão a antecipação de contribuições dos bancos, a criação de uma cobrança extra a ser paga pelas instituições associadas, e a negociação com o Banco Central para o uso de parte do compulsório para reforçar recursos do FGC. O plano prevê adiantar o equivalente a 60 meses de contribuições ainda em 2026, além de mais 12 meses em 2027 e outros 12 meses em 2028.
Atualmente, os bancos pagam uma taxa mensal de 0,01% sobre o saldo dos depósitos cobertos pelo fundo, e em agosto o Conselho Monetário Nacional criou uma cobrança adicional para instituições mais expostas a riscos, elevando a taxa para 0,02%, e determinou que mantenham uma parcela maior de recursos aplicada em títulos públicos.
O economista Armando Castelar afirmou, “A contribuição deveria refletir o risco da instituição”, defendendo que bancos mais arriscados contribuam com valores maiores, reduzindo incentivos distorcidos que tornam o uso da proteção mais atraente para instituições que assumem riscos maiores.
Especialistas alertam que parte desse custo tende a ser repassada aos consumidores por meio de tarifas mais altas, juros maiores nos empréstimos ou menor rendimento nas aplicações, e que a necessidade de destinar recursos ao fundo pode levar bancos e fintechs a apertar critérios de crédito, tornando o financiamento mais caro e menos acessível.
O que muda para quem quer investir
O episódio mostra que a presença da garantia do FGC não elimina a necessidade de avaliação da instituição e do produto financeiro, especialmente quando as taxas oferecidas são muito superiores ao mercado.
Para investidores iniciantes, a recomendação é buscar informação, avaliar o histórico da instituição, considerar prazos e cenário de risco, e não confiar apenas no selo de proteção. A quebra do Banco Master gerou um abalo de confiança e levou muitos a adotar postura mais conservadora, enquanto o sistema financeiro e reguladores tentam ajustar regras para reduzir distorções e proteger consumidores.
O caso segue em desdobramento, com pagamentos pendentes envolvendo empresas e situações específicas, e com as listas de credores do Will Bank e do Banco Pleno ainda não finalizadas, etapas necessárias para que o FGC inicie novos desembolsos.