quinta-feira, junho 4, 2026

Como o colapso do Banco Master expôs os limites do FGC, R$ 51 bilhões a pagar, R$ 37,2 bilhões já desembolsados, recomposição pode encarecer crédito

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O colapso do Banco Master mostrou até onde a garantia do FGC alcança, R$ 51 bilhões a pagar, R$ 37,2 bilhões já desembolsados, e riscos para poupadores e para o custo do crédito

Marina, de 27 anos, aplicou R$ 10 mil em CDBs do Banco Master atraída por alta rentabilidade e pela ideia de segurança. Ela conseguiu recuperar o valor via garantia, e descreveu o alívio ao ver o crédito cair na conta.

Muitos outros investidores não tiveram a mesma rapidez, e parte dos clientes do grupo Master ainda aguarda ressarcimento, enquanto Will Bank e Banco Pleno seguem com listas de credores em andamento.

Os números e depoimentos mostram efeitos que vão além da perda imediata, gerando dúvidas sobre o uso do FGC como argumento comercial e sobre as mudanças necessárias na cobrança e no financiamento do fundo, conforme informação divulgada pelo g1.

Como funciona a garantia do FGC e seus limites

O FGC, criado em 1995, funciona como um seguro que protege depósitos e aplicações se um banco quebrar. O fundo garante a devolução de até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ em cada grupo financeiro, e há um limite total de R$ 1 milhão a cada quatro anos, somando o valor aplicado e os rendimentos acumulados até a data da liquidação ou falência.

Apesar desses limites, especialistas afirmam que a percepção de segurança foi usada para vender produtos mais arriscados a investidores pouco experientes, elevando a exposição do FGC.

O que a liquidação do Banco Master revelou

O colapso do Banco Master, do Will Bank e do Banco Pleno levará o FGC a desembolsar mais de R$ 50 bilhões, segundo a apuração. Na prática, o fundo informou que deverá pagar cerca de R$ 51 bilhões e que já desembolsou R$ 37,2 bilhões, valor destinado a 653 mil credores do Master, o que representa 84% dos beneficiários.

Investidores relatam meses de espera, e mesmo quem recebeu, como Alexandre, disse que embora o valor tenha voltado, o tempo parado pode reduzir ganhos reais, por inflação e por perda de oportunidade. Como disse o advogado Roberto Panucci, “recuperar o dinheiro não significa que o investimento tenha sido vantajoso”.

A economista Ione Amorim afirma que “O FGC foi apresentado como garantia absoluta para atrair investidores menos experientes, Todo investimento envolve risco, mesmo com a proteção do fundo, e isso, pelo visto, nem sempre foi explicado de forma clara pelas corretoras”, o que ajuda a entender a fragilidade do modelo de venda desses títulos.

Quem paga a conta e quais são as consequências

Os recursos do FGC vêm das contribuições dos bancos associados, pagas mensalmente. Antes do caso Master, o fundo tinha mais de R$ 140 bilhões em caixa, mas agora precisará recompor uma parte significativa desse volume.

Para recompor o caixa, o FGC discute medidas como antecipar contribuições, criar cobrança extra, e negociar o uso de parte do compulsório junto ao Banco Central. Especialistas defendem que a contribuição deveria refletir o risco da instituição, na frase de Armando Castelar, pesquisador do FGV Ibre.

O custo dessa recomposição tende a repercutir, direta ou indiretamente, para consumidores, por meio de tarifas mais altas, juros maiores nos empréstimos, ou menor rendimento nas aplicações. Também pode reduzir a oferta de crédito, porque instituições terão menos capital disponível.

Medidas em discussão e problemas que permanecem

Entre as ações já apontadas, estão, segundo a apuração:

  • Antecipar contribuições que seriam pagas nos próximos anos, com um plano que prevê adiantar o equivalente a 60 meses em 2026, mais 12 meses em 2027, e outros 12 meses em 2028,
  • Criar uma cobrança extra, sem prazo definido, a ser paga pelas instituições associadas,
  • Negociar com o Banco Central o uso de parte do compulsório para reforçar os recursos do FGC,

O Conselho Monetário Nacional já aumentou, em agosto, a cobrança para instituições mais expostas, elevando a taxa para 0,02% e determinando que mantenham uma parcela maior aplicada em títulos públicos, mas especialistas avaliam que o problema central persiste, porque o modelo ainda cria incentivos distorcidos.

Para o advogado Adilson Bolico, a dinâmica de vendas pode ter provocado uma “quebra do dever fiduciário”, com bancos e corretoras agindo em benefício próprio ao destacar produtos protegidos pelo FGC para investidores menos experientes.

Na prática, a experiência com o colapso do Banco Master reforça que a garantia do FGC tem limites, que a recuperação financeira pode demorar, e que mudanças no modelo de financiamento e na supervisão são necessárias para reduzir incentivos ao risco e proteger melhor poupadores e a estabilidade do sistema financeiro.

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