quinta-feira, junho 4, 2026

Como o colapso do Banco Master expôs os limites do FGC, por que R$ 51 bilhões serão pagos e como a recomposição do fundo pode encarecer crédito e investimentos

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O episódio do Master mostrou até onde vai a proteção do FGC, quais riscos seguem por trás do selo de garantia e que mudanças regulatórias e de custo estão em análise

Milhares de investidores descobriram na prática os limites do FGC, ao verem aplicações travadas durante meses e a necessidade de um desembolso bilionário para ressarcir clientes.

O episódio afetou a confiança, estimulou uma postura mais conservadora entre aplicadores e obrigou bancos a discutir formas de recompor o caixa do fundo, com impacto eventual no custo do crédito.

As informações a seguir detalham o que ocorreu, os números envolvidos e as propostas para evitar que falhas semelhantes se repitam, conforme informação divulgada pelo g1

Como funciona a garantia e quais são seus limites

O Fundo Garantidor de Créditos funciona como um seguro que devolve recursos de depositantes e investidores quando uma instituição é liquidada.

O fundo garante a devolução de até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ em cada grupo financeiro, e, conforme regras vigentes, há um limite total de R$ 1 milhão a cada quatro anos, somando valores aplicados e rendimentos acumulados até a data da liquidação.

Mesmo com essa proteção, o caso do Banco Master expôs fragilidades na percepção de segurança por parte do público e na forma como produtos eram ofertados, em especial CDBs com remunerações muito acima da média do mercado.

O tamanho do impacto e o ritmo dos pagamentos

Somando Master, Will Bank e Banco Pleno, o FGC deverá pagar cerca de R$ 51 bilhões para ressarcir clientes e investidores afetados, valor que vem reduzindo o caixa do fundo e obrigando medidas de recomposição.

O fundo informou que já desembolsou R$ 37,2 bilhões, e que, ao todo, 653 mil credores do Master receberam os valores, o que representa 84% dos beneficiários.

Alguns pagamentos ainda aguardam confirmação documental, e as listas de credores do Will e do Pleno ainda não foram finalizadas, condição necessária para novos repasses.

Por que a crise afetou a confiança e as escolhas dos investidores

Especialistas dizem que o FGC passou a ser usado como “argumento de venda” por corretoras e bancos, diminuindo a percepção de risco de títulos que, na prática, implicavam maior chance de perda.

Ione Amorim, do Idec, afirmou, “O FGC foi apresentado como garantia absoluta para atrair investidores menos experientes. Todo investimento envolve risco, mesmo com a proteção do fundo, e isso, pelo visto, nem sempre foi explicado de forma clara pelas corretoras”.

Clientes relatam experiências variadas, que vão desde alívio até frustração com o tempo de espera. Marina disse, “Quando vi o valor creditado, fiquei muito aliviada”, e Alexandre contou, “Demorou, mas deu certo. Depois que liberaram o pedido de ressarcimento, o dinheiro caiu na conta em quatro dias. Mas, desde a liquidação do banco, foram meses de espera”.

O advogado Adilson Bolico apontou que a dinâmica pode ter gerado uma “quebra do dever fiduciário” entre intermediários e clientes, enquanto Roberto Panucci destacou que recuperar o valor não elimina perdas econômicas, pois “recuperar o dinheiro não significa que o investimento tenha sido vantajoso”.

Medidas em debate e o que muda para consumidores e bancos

Para recompor o fundo, o FGC avalia alternativas como antecipar contribuições que seriam pagas nos próximos anos, criar uma cobrança extra para instituições associadas e negociar com o Banco Central o uso de parte do compulsório.

Uma proposta prevê adiantar o equivalente a 60 meses de contribuições ainda em 2026, além de 12 meses em 2027 e outros 12 meses em 2028, para acelerar a recomposição do caixa.

Especialistas defendem que “a contribuição deveria refletir o risco da instituição”, conforme o economista Armando Castelar, e lembram que hoje os bancos pagam uma taxa mensal de 0,01% sobre o saldo dos depósitos cobertos pelo fundo.

Em agosto, o Conselho Monetário Nacional criou uma cobrança adicional para instituições mais expostas, elevando a taxa para 0,02%, e determinou que mantenham uma parcela maior de recursos aplicada em títulos públicos.

O principal ponto é que parte do custo de recompor o FGC tende a ser repassada aos consumidores, porque, como observa o relatório, “parte desse custo tende a ser repassada aos demais consumidores, por meio de tarifas mais altas, juros maiores nos empréstimos ou menor rendimento nas aplicações financeiras”.

Além do efeito sobre tarifas e rendimentos, bancos e fintechs podem apertar critérios de crédito, reduzindo oferta ou elevando preços, o que alcança famílias e empresas que não participaram diretamente dos investimentos no Master.

O que o investidor deve lembrar sobre os limites do FGC

O caso deixa lições claras, entre elas, que o selo do FGC não elimina risco, que altas remunerações podem sinalizar maior risco e que a velocidade de ressarcimento pode variar conforme documentação e tipo de credor.

Investidores iniciantes devem buscar informações sobre a instituição emissora, questionar ofertas acima da média do mercado e entender prazos e condições de liquidez antes de decidir.

O debate sobre os limites do FGC deve seguir nos próximos meses, enquanto reguladores, bancos e consumidores avaliam medidas para reduzir incentivos a práticas de risco e para tornar o financiamento do fundo mais equitativo.

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