Como a nova reforma da Previdência pode neutralizar o déficit do RGPS, conter queda da arrecadação e frear o aumento de beneficiários nos próximos 75 anos
O debate sobre uma nova reforma da Previdência voltou a ganhar força, mesmo após a alteração de 2019, porque três fatores combinados pressionam as contas públicas: informalidade crescente, benefícios indexados ao salário mínimo e o envelhecimento da população.
Especialistas apontam que, apesar de a última reforma ter ajudado a conter o rombo em 2024 e 2025, projeções do próprio governo indicam que o déficit do Regime Geral de Previdência Social, o RGPS, pode mais que quadruplicar nos próximos 75 anos, o que torna urgente repensar o modelo de financiamento.
O texto a seguir reúne dados e avaliações de consultores e analistas sobre por que a reforma da Previdência deveria estar sendo pensada agora, e quais caminhos podem ser considerados, conforme informação divulgada pelo g1.
Por que as contas estão pressionadas
Em 2025, a diferença entre o que foi arrecadado e o que o governo federal teve que complementar para pagar benefícios, aposentadorias e pensões foi de R$ 436 bilhões. A maior parte desse valor cobriu o déficit do RGPS, mais de R$ 320 bilhões, R$ 17 bilhões a mais do que em 2024.
Analistas relacionam esse quadro à alta informalidade e ao surgimento de ocupações que não contribuem para a Previdência, como trabalhadores de aplicativo, o que reduz a base de arrecadação. Bernardo Schettini, consultor do Senado, alertou, “É um desafio bem complicado. Nesse modelo que a gente tem hoje, não vejo sustentabilidade. Acho que a gente tem que fazer uma mudança no modelo de custeio da previdência“, destacando a necessidade de mexer no financiamento do sistema.
O efeito dos benefícios indexados ao salário mínimo
A política de valorização do salário mínimo eleva despesas em ritmo superior ao da inflação, porque mais de 60% dos benefícios são indexados ao piso nacional. Esse mecanismo aumenta os gastos previdenciários mesmo quando a arrecadação não cresce na mesma velocidade.
Especialistas lembram que, para reduzir o déficit sem alterar regras, seria necessário elevar muito as contribuições ou aceitar aposentadorias mais baixas, alternativas politicamente e socialmente difíceis de sustentar.
Envelhecimento, demografia e o risco no longo prazo
O envelhecimento da população agrava o problema fiscal do sistema de repartição, em que as contribuições dos ativos pagam os benefícios dos aposentados. Leonardo Rolim, consultor da Câmara dos Deputados, afirmou, “Se a gente olhar para 2070, quando quem está entrando no mercado de trabalho agora provavelmente vai estar se aposentando, nós vamos mais do que dobrar novamente o número de idosos. Nós vamos ter em 2070 mais ou menos seis vezes o número de idosos que tínhamos em 2000“.
Rolim também observou, “Nos últimos 25 anos, o número de pessoas em idade ativa, potenciais contribuintes da Previdência, cresceu cerca de 30%, enquanto o total de potenciais beneficiários mais do que dobrou“, o que cria um descompasso entre contribuintes e beneficiários e pressiona ainda mais as contas.
Crescimento de benefícios e do déficit, números que explicam a urgência
O volume de beneficiários cresceu de 28,3 milhões em 2015 para 35,2 milhões em 2025, e o crescimento anual médio do volume de benefícios emitidos foi de 2,21% a.a., segundo Pedro Souza, analista da Instituição Fiscal Independente.
Em termos reais, valores de janeiro de 2026, “o déficit da previdência saiu de R$ 147,5 bilhões em 2015 para R$ 323,1 bilhões em 2025“, e as despesas totais atingiram R$ 1,04 trilhão em 2025. A receita do RGPS cresceu em média 1,82% a.a. na última década, enquanto a despesa cresceu cerca de 3,37% a.a., evidenciando o descompasso entre receitas e gastos.
O que especialistas e autoridades sugerem
O tema é reconhecido pelo governo, e o secretário do Tesouro Nacional, Rogério Ceron, já afirmou que o sistema previdenciário brasileiro está pressionado e precisará ser discutido. Para especialistas, a solução exige combinar medidas que ampliem a base de contribuintes, ajustem regras de indexação e reformulem o modelo de custeio.
As propostas apontam para iniciativas que reduzam a informalidade, modernizem a contribuição de novas formas de trabalho e repensem a vinculação automática a parâmetros como o salário mínimo, sempre buscando proteger os mais vulneráveis e garantir sustentabilidade financeira.
Ao considerar uma reforma da Previdência agora, autoridades e técnicos visam evitar que o déficit se torne insustentável nas próximas décadas, preservando a capacidade de pagar benefícios sem transferências fiscais insustentáveis.