Com crescimento pequeno em encomendas e mensagens, Correios buscam reestruturação para reverter 12 trimestres de prejuízos, reduzir custos e captar recursos
Os Correios voltaram a registrar aumento, ainda que tímido, nas receitas de seus principais produtos, enquanto enfrentam um rombo operacional que já dura 12 trimestres consecutivos.
A empresa reportou movimentação maior em encomendas e serviços de mensagens, mas o resultado acumulado até setembro não foi suficiente para evitar perdas expressivas no balanço.
O pacote de medidas anunciado inclui cortes de pessoal, venda de imóveis e a busca por novas fontes de capital, numa tentativa de recuperar a saúde financeira nos próximos anos, conforme informação divulgada pelo g1.
Receitas em encomendas e mensagens e o prejuízo do trimestre
Conforme as demonstrações financeiras do 3º trimestre, na posição de 30 de setembro, os Correios registraram receita de R$ 7,2 bilhões com encomendas e R$ 3,6 bilhões com mensagens. Mesmo com esses avanços, a estatal apresentou um prejuízo de R$ 6 bilhões no 3º trimestre de 2025, contra um prejuízo de R$ 2,1 bilhões no mesmo período de 2024.
O aumento nas linhas principais foi modesto em relação ao histórico recente: as encomendas cresceram R$ 107 milhões ante 2023, impactando 1,5% no comparativo, e os serviços de mensagens subiram R$ 58 milhões, ou 1,7%.
Queda de postagens internacionais e perda de mercado
As postagens internacionais, que chegaram a responder por mais de 20% das receitas, sofreram forte encolhimento, com a receita caindo para R$ 1,1 bilhão, quase R$ 2 bilhões a menos que em 2024.
O efeito do programa Remessa Conforme, criado pelo Ministério da Fazenda em 2023, foi apontado como principal causador da redução, porque permitiu que empresas de transporte façam a distribuição de encomendas internacionais sem passagem obrigatória pelos Correios.
Segundo os dados apresentados, houve uma redução de R$ 2,2 bilhões entre o acumulado até setembro de 2023 e 2025, o que representa 66% do que havia sido arrecadado no ano da implantação do programa. Em termos de participação no mercado, os Correios saíram de 51% em 2019 para 22% atualmente.
Plano de reestruturação e medidas previstas
A direção apresentou um plano de reestruturação que prevê cortes e ajustes para tentar recuperar o equilíbrio já em 2026, com lucro previsto a partir de 2027.
O projeto inclui redução de R$ 2 bilhões em gastos com pessoal, venda de R$ 1,5 bilhão em imóveis não operacionais, fechamento de mil agências deficitárias, e a reformulação do plano de saúde para reduzir custo em R$ 500 milhões anuais.
Para isso, os Correios também planejam implementar um Programa de Demissão Voluntária, com a expectativa de reduzir o quadro em 15 mil funcionários, o que representaria cerca de 18% da folha, e cortar 1 mil pontos de venda deficitários.
O presidente Emmanoel Rondon reforçou a mudança de cenário, afirmando que, “o monopólio de cartas em centros urbanos ou em locais que geravam rentabilidade passou a não ser suficiente para financiar as comunicações físicas que estão ligadas a universalização do serviço postal em locais remotos ou locais que são originalmente deficitários“. Rondon também disse que o “modelo econômico-financeiro dos Correios deixou de ser ‘viável’“.
Busca por recursos, empréstimos e projeções
Para manter as operações, a estatal informou que ainda vai buscar R$ 8 bilhões como parte do plano de reestruturação, via aportes do Tesouro Nacional ou novo empréstimo. Na semana anterior, os Correios contrataram um empréstimo de R$ 12 bilhões junto a instituições financeiras para quitar dívidas e aliviar o caixa.
A intenção inicial era um empréstimo de R$ 20 bilhões, oferta que foi considerada com uma taxa de juros elevada, segundo a empresa. O plano foi concebido originalmente com necessidade estimada de captação da ordem de R$ 20 bilhões.
Em termos de receita, a expectativa interna é alcançar R$ 21 bilhões em 2027. Para comparação, a receita total foi de R$ 18,9 bilhões em 2024, R$ 19,2 bilhões em 2023, e R$ 19,8 bilhões em 2022.
Além disso, os Correios planejam investir R$ 4,4 bilhões entre 2027 e 2030, com captação junto ao Novo Banco de Desenvolvimento do Brics, com destinação para automação de centros, renovação e descarbonização da frota, modernização de TI e redesenho da malha logística.
O conjunto de medidas, que combina redução de custos e tentativa de ampliar receitas, é apresentado pela empresa como caminho para interromper a sequência de perdas e recuperar competitividade no mercado de encomendas e serviços postais.