Mesmo com recuperação tímida nas receitas dos Correios por encomendas e mensagens, a estatal enfrenta queda na arrecadação total, impacto das postagens internacionais e projeto de reestruturação
Os Correios voltaram a registrar crescimento, ainda que pequeno, nas receitas com encomendas e mensagens até setembro de 2025, com destaque para o acumulado que é o maior desde 2022.
No terceiro trimestre a empresa apresentou um prejuízo de R$ 6 bilhões, enquanto busca alternativas para evitar colapso financeiro, entre elas captações e medidas internas de corte de custos.
A análise detalhada das demonstrações financeiras e do plano de reestruturação mostra perda de receita em áreas-chave, e medidas com impacto direto em pessoal e na rede de atendimento, conforme informação divulgada pelo g1.
Receitas por produto e sinais de crescimento
Até 30 de setembro de 2025, os Correios registraram R$ 7,2 bilhões com encomendas e R$ 3,6 bilhões com mensagens, números que mostram recuperação, ainda que tímida, em relação aos anos anteriores.
Entre 2023 e 2025, o maior aumento ficou com a categoria chamada de “outros”, que engloba serviços de logística, marketing, malote, conveniência e venda de chip para celulares, com alta de 13,8%, equivalente a R$ 117 milhões, mas que representa apenas 7,5% da receita total.
As encomendas, principal produto dos Correios, cresceram em R$ 107 milhões no período, e os serviços de mensagens tiveram aumento de 1,7%, R$ 58 milhões, mas o impacto na receita consolidada foi pequeno.
Queda na receita total e impacto do programa Remessa Conforme
A receita total da estatal caiu de forma significativa, em grande parte por causa do programa Remessa Conforme, criado pelo Ministério da Fazenda em 2023, que passou a tributar importações de até US$ 50 e permitir que transportadoras privadas façam a entrega final no país.
As postagens internacionais, que antigamente respondiam por mais de 20% das receitas, registraram queda de quase R$ 2 bilhões em relação a 2024, alcançando R$ 1,1 bilhão. No acumulado até setembro, houve redução de R$ 2,2 bilhões entre 2023 e 2025, o que representa 66% do que havia sido arrecadado no ano da implantação do programa.
Os Correios também perderam participação no mercado de encomendas, saindo de 51% em 2019 para 22% em 2025, de acordo com levantamento apresentado pela própria companhia.
Plano de reestruturação, cortes e metas financeiras
Para enfrentar a crise, a direção dos Correios apresentou um plano que prevê cortes e mudanças operacionais, incluindo redução de R$ 2 bilhões em gastos com pessoal, venda de imóveis e o fechamento de mil agências, entre cerca de 5 mil unidades existentes.
A empresa vai implementar um Programa de Demissão Voluntária, PDV, e planeja reduzir em 15 mil o número total de funcionários, o que representa aproximadamente 18% da folha, e espera reduzir em R$ 2,1 bilhões os custos com pessoal.
Outras medidas previstas no plano incluem vender R$ 1,5 bilhão em imóveis não operacionais, reduzir mil pontos de venda deficitários e reformular o plano de saúde para cortar R$ 500 milhões anuais.
O presidente da empresa, Emmanoel Rondon, afirmou, “O monopólio de cartas em centros urbanos ou em locais que geravam rentabilidade passou a não ser suficiente para financiar as comunicações físicas que estão ligadas a universalização do serviço postal em locais remotos ou locais que são originalmente deficitários“.
Captações, empréstimos e perspectivas
Os Correios anunciaram que ainda vão buscar mais R$ 8 bilhões para manter operações, dentro do plano de reestruturação que prevê recuperar as contas em 2026 e voltar a lucrar em 2027.
Na semana anterior a companhia contratou um empréstimo de R$ 12 bilhões junto a instituições financeiras para quitar dívidas e aliviar o caixa. A ideia inicial era tomar R$ 20 bilhões, oferta que não foi autorizada pelo Tesouro Nacional por causa da taxa de juros elevada.
A empresa projeta chegar a R$ 21 bilhões de receita em 2027. Para investimentos, planeja aplicar R$ 4,4 bilhões entre 2027 e 2030, com captação junto ao Novo Banco de Desenvolvimento do Brics, presidido por Dilma Rousseff, destinada à automação de centros, renovação e descarbonização da frota, modernização de TI e redesenho da malha logística.
Mesmo com aumento nas receitas de alguns produtos, o balanço mostra que a combinação de perda de mercado, impacto das mudanças na política de importações e custos fixos pressionam a empresa a tomar medidas profundas para recuperar a sustentabilidade financeira.