Orçamento 2026 aponta redução de receitas correntes e aumento forte das despesas, com PDV, venda de imóveis e possibilidade de novo empréstimo de até R$ 8 bilhões
A estatal enfrenta cenário de retração de mercado e pressões sobre custos, que se refletem no orçamento encaminhado ao governo para 2026.
O documento combina projeções operacionais, planos de reestruturação e a contratação de crédito para dar fôlego ao caixa da empresa.
As informações e números detalhados abaixo foram divulgados pelo g1, e sintetizam o conteúdo do demonstrativo orçamentário e dos anúncios públicos feitos pela direção dos Correios, conforme informação divulgada pelo g1.
Previsão orçamentária e receitas
A previsão orçamentária dos Correios para 2026 indica aumento de 21% nas despesas correntes da empresa e redução de 26% nas receitas. Essa frase expressa o quadro central apresentado no decreto com as estimativas orçamentárias das empresas estatais federais para 2026.
Para 2026, os Correios estimam R$ 17,7 bilhões em receitas correntes, que incluem encomendas, mensagens, correspondências internacionais e outros serviços. O valor é R$ 6,3 bilhões inferior ao previsto para 2025, quando a expectativa era de R$ 24 bilhões.
Até setembro de 2025, a empresa havia registrado R$ 12,3 bilhões em receitas, o equivalente a 60% do total previsto para o ano. Para alcançar a estimativa anual, seria necessário arrecadar R$ 8,3 bilhões no último trimestre, cerca do dobro da média dos trimestres anteriores.
Despesas e folha de pagamentos
As despesas correntes projetadas para 2026 sobem para R$ 29 bilhões, ante R$ 24 bilhões estimados para 2025, um acréscimo de R$ 5 bilhões, ou 21%.
A despesa com pessoal também cresce, subindo R$ 1,5 bilhão, passando de R$ 14,2 bilhões para R$ 15,7 bilhões, mesmo com o plano de desligamentos e PDV anunciado pela direção.
Entre as economias previstas, os gastos com dirigentes terão a maior redução proporcional, de 33,48%, caindo de R$ 13,9 milhões em 2025 para R$ 8,8 milhões em 2026, segundo o demonstrativo.
Empréstimo, condições e garantia da União
Nesta terça-feira (30), os Correios receberam R$ 10 bilhões dos R$ 12 bilhões contratados junto a um consórcio de bancos privados. A assinatura do contrato foi publicada no Diário Oficial da União, e o consórcio reúne Itaú, Bradesco, Santander, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal.
O contrato tem validade até 2040 e conta com garantia da União, autorizada pelo Tesouro Nacional em 18 de dezembro, o que significa que o governo federal cobre a dívida caso a estatal não consiga honrar os pagamentos.
Segundo a direção, o contrato prevê carência de três anos e início dos pagamentos mensais em dezembro de 2029, e a taxa de juros foi fixada em 115% do CDI, abaixo do teto de 120% estabelecido pelo Tesouro.
Durante coletiva, o presidente dos Correios não descartou novos empréstimos, no valor de até R$ 8 bilhões, que podem vir do Tesouro Nacional ou de novas operações de crédito, alternativas que ainda estão em análise.
Plano de reestruturação, PDV e metas para 2027
O plano de reestruturação prevê corte de R$ 2 bilhões em gastos com pessoal, venda de imóveis e fechamento de cerca de mil agências, hoje a empresa tem aproximadamente 5 mil unidades.
O PDV prevê o desligamento de até 10 mil funcionários, e a estatal planeja reduzir em até 15 mil o número de funcionários em dois anos, o que representaria um corte de 18% na folha de pagamentos.
Segundo a direção, o plano busca reverter uma sequência de 12 trimestres consecutivos de prejuízos, e a expectativa é equilibrar as contas em 2026 e voltar a registrar lucro a partir de 2027.
No primeiro semestre de 2025, os Correios divulgaram prejuízo de R$ 4,3 bilhões, ante resultado negativo de R$ 1,3 bilhão no mesmo período de 2024. A direção advertiu que, sem ajustes, a empresa pode registrar prejuízo de até R$ 23 bilhões em 2026.
Riscos, receitas futuras e investimentos
A perda de participação no mercado de encomendas é um fator estrutural, conforme levantamento da própria empresa, a participação caiu de 51% em 2019 para 22% em 2025.
Parte da redução está associada ao programa Remessa Conforme, que alterou regras de importação e permitiu maior atuação de empresas privadas na distribuição de encomendas internacionais.
Para reverter a trajetória, os Correios planejam aumentar receitas e investir em automação, frota e tecnologia. A estatal pretende investir R$ 4,4 bilhões entre 2027 e 2030, com recursos de um empréstimo do Novo Banco de Desenvolvimento do Brics.
O plano prevê, entre outras medidas, redução de R$ 2,1 bilhões nos custos com pessoal, venda de R$ 1,5 bilhão em imóveis não operacionais, fechamento de mil pontos de atendimento deficitários e reformulação do plano de saúde com economia estimada em R$ 500 milhões por ano.
O desfecho dependerá da execução do PDV, das vendas de ativos, do comportamento da demanda por encomendas e do custo do endividamento, e as medidas anunciadas desenham um caminho de recuperação, ainda que sujeito a riscos macroeconômicos e operacionais.