Novo critério exige listas de funcionários palestinos até 1º de janeiro, ameaça atingir Oxfam, CARE, World Vision e MSF, e pode paralisar entrega de alimentos e assistência médica
A decisão do governo de Israel impõe um prazo final para que as organizações humanitárias forneçam dados de seus funcionários palestinos, sob risco de revogação de licença e proibição de entrada em Gaza.
Se a medida for mantida, a logística de envio de suprimentos e a atenção médica no território podem ser gravemente comprometidas, num momento de frio e destruição de abrigos.
As informações sobre o prazo e as possíveis consequências foram divulgadas pelo g1 e motivaram reações de agências internacionais e de governos, em apelos para que a ajuda continue chegando às populações vulneráveis, conforme informação divulgada pelo g1
O que Israel exige e a justificativa oficial
O governo israelense deu como prazo a data de 1º de janeiro para que organizações apresentem listas com dados de funcionários palestinos, sob a justificativa de que novas normas visam impedir que terroristas explorem a ajuda internacional.
O porta-voz Gilad Zwick afirmou à AFP, sobre a exigência, “Duvido que o que não fizeram durante dez meses o façam em menos de doze horas”, citando resistência de algumas ONGs em fornecer as informações por suposto envolvimento de funcionários com o Hamas.
Entre as 37 organizações citadas estão nomes reconhecidos, como Oxfam, CARE, World Vision International e a própria Médicos Sem Fronteiras, que aparece na lista das afetadas.
Apelos de ONGs e acusações cruzadas
A organização Médicos Sem Fronteiras, conhecida pela atuação médica em áreas de conflito, fez um apelo ao governo de Israel para continuar suas operações na Faixa de Gaza e na Cisjordânia.
A MSF alertou que a medida impactará “cuidados de saúde vitais” para centenas de milhares em 2026, destacando o risco de colapso nos serviços clínicos e no transporte de pacientes.
Em sentido contrário, Israel chegou a acusar a MSF de ter funcionários ligados a grupos como o Hamas e a Jihad Islâmica, enquanto o Hamas classificou a decisão como um “comportamento criminoso” e um “desprezo flagrante pelo sistema humanitário”.
Reações internacionais e preocupação humanitária
O alto comissário da ONU para os Direitos Humanos, Volker Türk, considerou a suspensão das agências de “ultrajante” e afirmou, em comunicado oficial, “Relembro às autoridades israelenses sua obrigação, segundo o direito internacional, de garantir o fornecimento de itens essenciais à vida diária em Gaza, inclusive permitindo e facilitando a ajuda humanitária”.
A autoridade da União Europeia para questões humanitárias, Hadja Lahbib, também criticou as exigências, afirmando que a lei de registro atual bloqueia a chegada de “ajuda vital” à população, e ressaltou que o Direito Internacional Humanitário não deixa margem para dúvidas quanto à necessidade de permitir assistência.
Nove países, incluindo Reino Unido e França, e posteriormente a Suíça, emitiram comunicados manifestando preocupação e pediram que Israel não impeça o trabalho das ONGs diante da situação humanitária.
Impacto previsto e cenário logístico
A crise ocorre em meio à chegada do inverno e a tempestades que destruíram milhares de tendas em Gaza, onde cerca de 1,3 milhão de pessoas precisam de apoio urgente para alojamento e moradia.
O acordo de cessar-fogo firmado em outubro previa a entrada de 600 caminhões diários com suprimentos, entretanto analistas projetam que apenas entre 100 e 300 têm cruzado a fronteira, número insuficiente diante das necessidades imediatas.
Se a proibição se confirmar após o vencimento do prazo à meia-noite, o envio de alimentos e assistência médica será gravemente comprometido em todo o território devastado, segundo alertas das organizações afetadas e de entidades internacionais.