Como a ação de Trump na Venezuela pode acelerar a produção venezuelana, derrubar preços do barril e provocar nova corrida por reservas e gás na América Latina
A intervenção americana em Caracas tende a reconfigurar fluxos de petróleo e investimentos em toda a América Latina, com efeitos sobre Brasil, Argentina, Guiana e Bolívia.
Especialistas e executivos já avaliam que a reabertura do mercado venezuelano poderá reduzir preços e deslocar capitais para campos antes negligenciados, elevando a competição regional.
Conforme informação divulgada pelo g1
Por que o petróleo venezuelano importa
A Venezuela “tem as maiores reservas mundiais de petróleo, com cerca de 17% do total”, e isso explica o interesse estratégico de Washington, e de outras potências, no país.
Apesar das reservas gigantescas, “a capacidade de produção nacional despencou para cerca de 800 mil barris por dia”, muito abaixo de concorrentes como Arábia Saudita, Rússia e Estados Unidos, e essa lacuna é vista como oportunidade por investidores americanos e regionais.
Quem pode ganhar com a nova dinâmica
Para o economista Adriano Pires, sócio-fundador do Centro Brasileiro de Infraestrutura, a ação americana estimula países com reservas a acelerar projetos, em petróleo e gás.
Ele observa que “Na Argentina, o governo de direita, do Milei, é alinhado a Trump. A Bolívia também recentemente teve uma eleição e a direita ganhou”, e isso pode facilitar atração de capitais e reformas para ampliar produção.
No caso da Guiana, a presença de ExxonMobil e Chevron já faz do país “uma grande estrela de produção de óleo” e o retorno de atores americanos à Venezuela cria mais opções para empresas que decidem onde aplicar recursos.
Impacto direto sobre o Brasil e a Petrobras
A provável recuperação da produção venezuelana colocará um novo concorrente na disputa por investimentos na região, pressionando a Petrobras a justificar gastos em projetos arriscados.
Segundo análises do mercado, “você vai ter empresas de petróleo que vão começar a se questionar: coloco dinheiro na Venezuela ou coloco na margem equatorial? Está sendo criado um concorrente para esses investimentos”, pontua Pires.
O Brasil, hoje “o sétimo maior produtor mundial”, caminha para maior produção, mas enfrenta decisões sobre alocação de capital em áreas como a margem equatorial e outros blocos exploratórios.
Além disso, Pires lembra que o país está “em curva ascendente de produção, passando dos menos de 4 milhões de barris por dia para uma expectativa de 5 milhões em 2027”, o que reforça o papel do Brasil no abastecimento global.
Preço do petróleo, China e rota das exportações
O provável aumento da oferta mundial de petróleo levará à queda ainda maior do preço do barril, hoje “negociado em torno de US$ 60”. Essa pressão sobre preços altera o balanço financeiro de projetos de extração, e pode frear investimentos com custos elevados.
Ao mesmo tempo, a mudança de cenário cria oportunidade comercial, porque “Pequim é o destino de 80% do petróleo venezuelano, a custos inferiores aos do mercado”. Com a situação venezuelana mudando, a China poderá perder parte desse abastecimento ou renegociar volumes e preços.
Pires destaca também que “as empresas chinesas de petróleo que compraram campos aqui no Brasil já produzem 350 mil barris por dia, então o Brasil é cada vez mais um país hiperimportante para a China, no sentido de abastecimento de petróleo”, o que torna Brasília um ator relevante nas negociações internacionais.
Geopolítica, controle de reservas e cenário futuro
Para analistas, um dos objetivos centrais da ação americana é reassumir influência sobre reservas que hoje servem interesses de rivais, e com isso alterar a geopolítica do óleo.
Como diz Pires, “O que ele quer, na realidade, é ter um controle maior sobre as reservas de petróleo mundiais, para poder dar um xeque-mate na China, que hoje é a segunda maior consumidora de petróleo no mundo, e ao mesmo tempo criar uma espécie de mini-OPEP para ele. Ele pode agora sentar à mesa e ser um player que define níveis de produção e automaticamente níveis de preço no mercado internacional de petróleo”, indica Pires.
Na avaliação do especialista, “No tabuleiro da geopolítica do petróleo, Trump passa a jogar com muito mais poder.” Essa reordenação pode acelerar decisões de governos e empresas na região, e mudar rotas de exportação, prioridades de investimento e alianças estratégicas.
O resultado prático deve ser uma combinação de queda de preços no curto prazo, maior competição por ativos e um redesenho das parcerias comerciais entre América Latina, Estados Unidos e China.