Partidos de extrema esquerda e extrema direita apresentaram moções contra o primeiro-ministro Sébastien Lecornu após sinal verde da Comissão ao acordo UE-Mercosul, em meio a protestos agrícolas
A oposição francesa apresentou moções de desconfiança contra o primeiro-ministro, aliado do presidente Emmanuel Macron, após a aprovação provisória do acordo entre a União Europeia e o Mercosul.
As iniciativas foram lideradas pela extrema esquerda, França Insubmissa, e pela extrema direita, Reunião Nacional, mas especialistas consideram improvável que consigam votos suficientes para derrubar o governo.
O episódio complica a já frágil situação do Executivo, que enfrenta atraso na aprovação do orçamento de 2026 e tem uma base parlamentar sem maioria, conforme informação divulgada pelo g1.
As moções e o cenário político
A **França Insubmissa (LFI)** apresentou uma moção na manhã de sexta-feira, e a **Reunião Nacional (RN)**, liderada por Marine Le Pen, afirmou que também apresentaria outra medida contra o governo, em reação ao **acordo UE-Mercosul**.
Apesar do gesto, a união entre RN e LFI não deve alcançar os votos necessários para derrubar o premiê **Sébastien Lecornu**, segundo analistas. Stewart Chau, analista do Verian Group, afirmou, à Reuters, que, “As moções têm pouca chance de serem aprovadas”.
O presidente do RN, Jordan Bardella, acusou Macron de agir apenas por postura, dizendo que o voto contra o acordo equivalia a “uma traição aos agricultores franceses”. Mathilde Panot, da LFI, escreveu no X que a França foi “humilhada” por Bruxelas e no cenário mundial, e que “Lecornu e Macron devem sair”.
O que diz o governo e as críticas ao acordo UE-Mercosul
O governo francês, apesar de ter votado contra, viu a Comissão Europeia obter a maioria qualificada necessária para avançar com o tratado. A assinatura cabe à Comissão Europeia e, depois, o Parlamento Europeu precisará ratificar o acordo.
O primeiro-ministro reagiu às moções afirmando que elas enviam um sinal negativo ao exterior, e publicou no X que, “Apresentar uma moção de censura neste contexto… é optar por enfraquecer a voz da França em vez de demonstrar unidade nacional em defesa da nossa agricultura”.
Os críticos, especialmente no setor agrícola francês, temem que o **acordo UE-Mercosul** aumente a entrada de alimentos mais baratos, como carne bovina, aves e açúcar, prejudicando os produtores locais.
Concessões, impactos econômicos e risco eleitoral
Segundo fontes, a França obteve concessões significativas de Bruxelas para mitigar o impacto sobre os agricultores, mas a mobilização contra o texto ganhou força, sobretudo nas áreas rurais onde a RN tem grande penetração.
Por outro lado, indústrias como vinícolas e produtores de queijo e leite podem se beneficiar do acesso ampliado a mercados sul-americanos, enquanto o Governo destaca que o acordo ajuda a reduzir dependência comercial de grandes terceiros, e garantir acesso a minerais críticos.
Analistas apontam que a assinatura pode fortalecer a narrativa anti-UE da RN e, assim, aumentar suas chances nas eleições presidenciais de 2027, mesmo que as moções de desconfiança não levem à queda do governo.