O tratado abre mercado europeu a produtos brasileiros, barateia importações de vinhos, carros e tecnologias agrícolas, e promete mexer em preços, cadeias produtivas e investimentos com o acordo UE-Mercosul
O fim de tarifas entre União Europeia e Mercosul tende a trazer ao consumidor brasileiro maior oferta de produtos europeus e redução gradual de preços, ao mesmo tempo em que altera custos e oportunidades para produtores e indústrias.
Produtos como vinhos, queijos, azeite e chocolates podem ficar mais baratos com a eliminação progressiva de tarifas, enquanto bens de capital, insumos e tecnologias agrícolas importados devem reduzir custos de produção.
Estas projeções decorrem da fase final de negociações do tratado e das análises de centros de pesquisa e consultoria, conforme informação divulgada pelo g1.
O que pode ficar mais barato para o consumidor
Com o acordo UE-Mercosul, itens tradicionais da União Europeia devem ganhar participação no mercado brasileiro, o que tende a pressionar preços para baixo no médio e no longo prazo. A expectativa é de queda em produtos como vinhos, queijos, lácteos, azeite, chocolate e bebidas destiladas.
Um exemplo concreto, citado em estudos e entrevistas, é o dos automóveis, hoje sujeitos a taxação de 35%, que deverá ser zerada em até 15 anos, contribuindo para o barateamento desses produtos.
Apesar disso, a redução de preços em itens complexos, como veículos, pode ser lenta, por causa da dependência de cadeias globais de componentes, e pode levar de dois a três anos para se tornar visível, segundo consultores do setor.
Impactos nos custos de produção e investimento industrial
O acordo não afeta só bens finais, ele também reduz tarifas sobre máquinas, equipamentos e insumos importados, o que pode baratear a modernização do agronegócio e da indústria. Máquinas, tratores, produtos químicos, fertilizantes, implementos, drones e sistemas de agricultura de precisão importados da Europa devem ficar mais acessíveis, afirma pesquisador da área.
Para a indústria, a maior entrada de bens manufaturados e tecnologias da UE tende a reduzir custos, estimular investimentos e facilitar a exportação de produtos com maior valor agregado, gerando empregos mais qualificados, segundo especialistas em relações internacionais e economia.
Exportações brasileiras, ofertas internas e riscos de alta de preços
O tratado abre oportunidades para ampliar vendas brasileiras à Europa, incluindo calçados, frutas e produtos agrícolas. No ano passado, as exportações do Brasil para a UE alcançaram US$ 49,8 bilhões, enquanto o bloco europeu exportou US$ 50,3 bilhões para o Brasil.
Segundo a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos, o acordo cria uma rede de comércio avaliada em US$ 22 trilhões, com potencial de ampliar as exportações brasileiras em R$ 7 bilhões adicionais.
Alguns produtos, exportados em maior volume, podem ter pressão de alta de preços no mercado interno por redução de oferta, porém analistas consideram improvável que isso afete de forma significativa o bolso dos brasileiros no curto prazo, porque setores conseguem rapidamente encontrar mercados substitutos.
Quem deve ganhar mais e qual é a projeção para o Brasil
Estimativas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) indicam que o Brasil deve ser o principal beneficiado pelo acordo. Até 2040, a assinatura poderia elevar o Produto Interno Bruto (PIB) nacional em 0,46%, crescimento superior ao projetado para a União Europeia e para os demais países do Mercosul.
Medicamentos e produtos farmacêuticos, inclusive de uso veterinário, já são importantes nas importações brasileiras da UE, representando mais de 8% do total, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), o que evidencia o impacto do tratado em setores sensíveis.
Em medidas específicas, calçados produzidos no Mercosul, hoje sujeitos a tarifas de 3% a 7% na UE, devem ter essas taxas zeradas em até quatro anos, e em alguns casos, como o da uva, a taxação de 14% será eliminada assim que o acordo entrar em vigor.
Especialistas lembram que os ganhos não serão automáticos nem uniformes, e vão variar por setor, conforme o calendário de eliminação de tarifas e a capacidade de adaptação de empresas e produtores. Para consumidores, por outro lado, a expectativa é majoritariamente positiva, com acesso a produtos mais baratos ao longo do tempo.