quinta-feira, junho 4, 2026

Deserto Peruano Vira Celeiro: Como o Peru Transformou Áreas Áridas em Potência Agroexportadora e os Desafios da Água

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Peru: A Revolução Verde em Pleno Deserto e a Luta pela Água

O Peru, um país com paisagens contrastantes, protagonizou uma transformação surpreendente ao converter um dos desertos mais áridos do mundo em um polo de produção agrícola de escala global. Em um esforço que começou nos anos 1990, impulsionado por reformas econômicas, o país não apenas reanimou sua economia, mas também se consolidou como um dos maiores exportadores de produtos agrícolas, com destaque para o mirtilo.

Essa façanha, no entanto, não veio sem seus desafios. A expansão da agroindústria em regiões desérticas levanta questões cruciais sobre o uso da água, um recurso cada vez mais escasso, e os impactos sociais e ambientais dessa nova realidade.

Conforme informação divulgada pelo G1, a jornada de sucesso do Peru na agroexportação é marcada por inovações técnicas, investimentos estratégicos e um clima que funciona como uma “estufa natural”. Contudo, a crescente demanda por água por parte das grandes plantações gera tensões com as comunidades locais e pequenos agricultores, que lutam pelo acesso a esse bem vital.

As Raízes da Transformação Agrícola Peruana

O impulso para a agroexportação peruana teve início na década de 1990, sob o governo de Alberto Fujimori. Naquele período, o país passava por uma crise econômica severa, e o governo implementou reformas profundas com o objetivo de reaquecer a economia e atrair investimentos.

“O trabalho de base foi realizado para reduzir as barreiras tarifárias, promover o investimento estrangeiro no Peru e reduzir os custos administrativos para as empresas. Buscava-se impulsionar os setores que tivessem potencial exportador”, explicou à BBC Mundo César Huaroto, economista da Universidade Peruana de Ciências Aplicadas.

Inicialmente, o foco era a mineração, mas no final do século, uma nova elite empresarial identificou o imenso potencial do setor agrícola para exportação, especialmente em áreas antes consideradas improdutivas.

Inovação e a Conquista do Deserto

A agricultura em larga escala no Peru enfrentava barreiras geográficas e de fertilidade. No entanto, o investimento privado de grandes produtores, menos avessos ao risco, impulsionou inovações cruciais. A especialista em ecologia vegetal Ana Sabogal, da Pontifícia Universidade Católica do Peru, destacou a adoção de técnicas como a **irrigação por gotejamento** e o desenvolvimento de projetos de irrigação ambiciosos.

A solução para a escassez de água em áreas desérticas permitiu o cultivo em locais antes inimagináveis. Aliado a isso, inovações genéticas, como o desenvolvimento de variedades de mirtilo adaptadas ao clima local, possibilitaram a incorporação de vastas áreas do deserto costeiro à superfície cultivável. Estima-se que essa expansão tenha chegado a cerca de 30%.

“A região não tinha água, mas com água tornou-se uma terra muito fértil”, afirmou Huaroto. Atualmente, regiões como Ica e Piura são centros nevrálgicos da produção agrícola peruana, e a agroexportação se tornou um dos pilares da economia do país.

Impactos Econômicos e Ambientais: Um Balanço Complexo

O crescimento da agroexportação gerou um impacto econômico significativo. Segundo a Associação de Exportadores (ADEX), as exportações agrícolas representaram 4,6% do Produto Interno Bruto (PIB) peruano em 2024, um salto considerável em relação aos 1,3% registrados em 2020. O setor se tornou um motor de empregos qualificados e aumentou a renda média dos trabalhadores em grandes áreas.

No entanto, os benefícios não são distribuídos igualmente. “Os pequenos agricultores independentes têm mais dificuldade de encontrar trabalhadores porque os salários são mais altos e também enfrentam mais dificuldades para acessar a água que precisam para suas plantações”, observou Huaroto. Essa dinâmica tem levado muitos pequenos proprietários a vender suas terras para grandes empresas.

A agroexportação também está reconfigurando a estrutura social e de propriedade no campo peruano. Contudo, mesmo pequenos agricultores encontram satisfação no trabalho que a agroindústria oferece a membros de suas famílias.

A Crise Hídrica: O Preço da Prosperidade

O ponto mais crítico da expansão agroexportadora peruana é, sem dúvida, o uso da água. Em um país onde uma parcela significativa da população não tem acesso à água encanada, o debate sobre o consumo intensivo pelas grandes plantações se tornou acirrado. “Em Ica está acontecendo uma disputa por água, porque não há para todos”, disse a ativista local Rosario Huayanca à BBC.

Em Ica, onde a chuva é praticamente inexistente, a maior parte da água provém do subsolo. Enquanto comunidades dependem de caminhões-pipa, grandes áreas de cultivo para exportação garantem seu suprimento por meio de poços e acesso prioritário à água de irrigação, muitas vezes transposta de outras regiões. A Autoridade Nacional de Água (ANA) estabeleceu em 2011 um rigoroso processo de fiscalização devido à “iminente superexploração de águas subterrâneas”.

Apesar das regulamentações, o problema persiste. Pequenos agricultores relatam a necessidade de cavar poços cada vez mais profundos, enquanto as grandes propriedades contam com reservatórios e sistemas de irrigação avançados. “Os pequenos agricultores se queixam que são obrigados a pagar caro pela água, enquanto as grandes propriedades contam com reservatórios e grandes tanques”, explicou Huayanca.

O futuro do agronegócio no Peru depende da busca por um modelo sustentável. “A situação atual não é sustentável a longo prazo. É ótimo que exista uma indústria agrícola de exportação, porque isso gera renda, mas somente enquanto se destinar a quantidade de água necessária para a população e ecossistemas”, concluiu Sabogal.

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