Rotina intensa, falta de reconhecimento e competição com ferramentas de inteligência artificial explicam o desgaste que afasta criadores de conteúdo do mercado
A vida por trás de vídeos curtos e posts aparentemente simples é marcada por horas de planejamento, gravação e edição, somadas a tarefas administrativas e cobrança constante por resultado.
Para muitos, a promessa de liberdade se transformou em exaustão, sobrecarga e preocupação permanente com a reputação online, com risco de cancelamento a qualquer deslize.
Os números mostram que a insatisfação não é marginal, e por isso metade dos profissionais já pensou em largar tudo, conforme informação divulgada pelo g1
O dado que explica a crise entre criadores
O estudo global da ManyChat mostra que 51% dos criadores consideraram abandonar a carreira nos últimos 12 meses. Esse índice chama atenção não pela falta de público, mas pelo desgaste provocado por uma rotina intensa, pouco previsível e, muitas vezes, mal remunerada.
Por trás do conteúdo que dura segundos, existe uma carga de trabalho que se aproxima, e em alguns casos ultrapassa, a de empregos tradicionais, porém o reconhecimento profissional muitas vezes não acompanha esse esforço.
Pressões, horas trabalhadas e percepção externa
Muitos criadores relatam contradições diárias, precisam estar sempre disponíveis, mas não podem falhar, têm que crescer sem perder autenticidade e monetizar sem parecer comerciais demais.
Segundo a pesquisa, os criadores usam quase 20 horas por semana apenas com planejamento, gravação e edição, sem contar tarefas administrativas ou negociações. Responder comentários e mensagens consome de 2 a 3 horas por semana, e para 5% dos criadores a gestão da caixa de entrada equivale a um trabalho em tempo integral.
O estigma persiste, 31% afirmam que as pessoas ainda não veem a criação de conteúdo como um trabalho de verdade, e isso interfere na maneira como estruturam suas carreiras.
Renda, estrutura e razões para desistir
A falta de estrutura profissional impacta a renda, quase três em cada quatro criadores ganham menos de US$ 10 mil por ano com conteúdo, e apenas um em cada 10 ultrapassa os US$ 30 mil anuais. Plataformas representam 39% dos ganhos, e parcerias com marcas, 28%.
Entre os criadores que pensaram em abandonar a carreira, os motivos apontados foram, nas proporções informadas pela pesquisa, 25% disseram que não estavam crescendo, 23% que não ganhavam dinheiro suficiente, 17% relataram perda de motivação ou interesse, 16% disseram que a rotina era demorada demais, e 11% apontaram esgotamento criativo.
A geração Z aparece mais afetada, 55% dos criadores dessa faixa etária cogitaram parar no último ano.
IA, futuro da profissão e metodologia
Para 2026, a principal preocupação apontada pelos criadores é a competição com conteúdo gerado por inteligência artificial. Ainda assim, a maioria planeja usar IA para brainstorm, legendas, pesquisa e edição, enquanto o público demonstra resistência, com 41% dizendo que não apoiariam um criador que se tornasse 100% IA.
O relatório também destaca reflexões sobre profissionalização, com apenas 14% se considerando um negócio, 36% como marca, e 50% dizendo ser apenas uma pessoa que posta conteúdo.
Metodologia, a ManyChat entrevistou 2.028 pessoas em nível global, sendo 1 mil criadores autodeclarados e 1.028 consumidores diários de redes sociais, com nível de confiança de 95% e margem de erro de cerca de 2%, com base em respostas autodeclaradas.
Como disse Monty Lans no relatório, “Ser um criador de conteúdo é muito mais do que gravar um vídeo ou tirar uma foto para postar nas redes sociais. É necessário desenvolver habilidades técnicas e, acima de tudo, ter um desejo genuíno de servir e impactar positivamente um público específico”.
Os desafios apontados pela pesquisa mostram que, sem estratégias, processos e limites claros, muitos criadores de conteúdo seguem em risco de esgotamento e de abandonar uma carreira que, apesar do potencial, ainda precisa se tornar mais sustentável e valorizada.