Metade dos criadores de conteúdo relatou ter pensado em parar, por desgaste emocional, reconhecimento insuficiente e pela pressão de estar sempre online, aponta levantamento
51% dos criadores consideraram abandonar a carreira nos últimos 12 meses. O número chama atenção porque não reflete falta de público, mas o desgaste de uma rotina intensa, imprevisível e muitas vezes mal remunerada.
Por trás de vídeos curtos e posts que duram segundos, há planejamento, gravação, edição e gestão de comunidade que se aproximam do trabalho formal, sem o mesmo reconhecimento ou suporte.
No levantamento, muitos criadores também relataram estigma social, cobranças constantes e medo da automação por inteligência artificial, conforme informação divulgada pelo g1.
Carga de trabalho e percepção pública
O estudo aponta que a imagem do criador como alguém que recebe produtos e trabalha de qualquer lugar não bate com a rotina real. Para grande parte, a profissão deixou de ser sinônimo de liberdade, e passou a representar exaustão, sobrecarga e pressão por presença contínua nas plataformas.
Segundo o levantamento, os criadores usam quase 20 horas por semana apenas com planejamento, gravação e edição de conteúdo. Responder comentários e mensagens consome de 2 a 3 horas por semana, e para 5% dos criadores, a gestão da caixa de entrada já equivale a um trabalho em tempo integral.
O estigma persiste, e cerca de 31% dos criadores afirmam que as pessoas ainda não veem a criação de conteúdo como um trabalho de verdade, com respostas que reforçam esse distanciamento: 26% dizem que o público acha que é fácil, 19% que não toma tanto tempo, e 12% ainda ouve que “criadores são ricos”.
Renda, estrutura e sobrevivência
A falta de estrutura profissional afeta diretamente a renda. Quase três em cada quatro criadores ganham menos de US$ 10 mil por ano com conteúdo, e apenas um em cada 10 ultrapassa os US$ 30 mil anuais. As plataformas representam a principal fonte de receita, com 39% dos ganhos, seguidas por parcerias e patrocínios, com 28%.
Por isso, muitos só veem resultados consistentes quando o trabalho é tratado como um negócio, com estratégia, processos e limites claros. Ainda assim, poucos têm essa visão: 14% se consideram um negócio, 36% se veem como uma marca, e 50% dizem ser apenas uma pessoa que posta conteúdo.
Motivos para desistir e impacto entre jovens
Entre os criadores que pensaram em abandonar a carreira, foram apontados motivos que misturam desgaste emocional e frustração profissional. Os números do estudo são diretos, e mostram as principais razões:
25% disseram que não estavam crescendo, 23% afirmaram que não ganhavam dinheiro suficiente, 17% relataram perda de motivação ou interesse, 16% disseram que a rotina era demorada demais, 11% apontaram esgotamento criativo.
A situação é mais crítica na Geração Z, onde 55% dos criadores dessa faixa etária cogitaram parar no último ano, o que indica que a promessa de autonomia muitas vezes se transforma em constante cobrança e vigilância.
Presença online, saúde e futuro com IA
O estudo também mostra o peso de estar sempre online, e que uma em cada quatro pessoas relatou sentir-se esgotada, sobrecarregada ou apática após passar tempo nas redes. Mesmo assim, uma em cada 10 gostaria de fazer uma pausa, mas sente que não pode, por medo de perder relevância ou oportunidades.
Quanto ao futuro da profissão, os criadores apontaram a competição com conteúdo gerado por inteligência artificial como a principal preocupação, além da saturação dos feeds e da dificuldade de manter comunidades autênticas. Apesar disso, a maioria planeja usar IA para brainstorm, escrita de legendas, pesquisa e edição.
A resistência do público também aparece nas respostas, com 41% dizendo que não apoiariam um criador que se tornasse 100% IA, o que indica tensão entre adoção de ferramentas e manutenção de confiança.
Como resume Monty Lans, citado no relatório, “Ser um criador de conteúdo é muito mais do que gravar um vídeo ou tirar uma foto para postar nas redes sociais. É necessário desenvolver habilidades técnicas e, acima de tudo, ter um desejo genuíno de servir e impactar positivamente um público específico”.
Metodologicamente, a pesquisa da ManyChat entrevistou 2.028 pessoas em nível global, sendo 1 mil criadores autodeclarados e 1.028 consumidores diários de redes sociais, com nível de confiança de 95% e margem de erro de cerca de 2%, com base em respostas autodeclaradas.