Como avaliar o risco de guerra na Europa hoje, entre previsões alarmistas, desequilíbrio militar a favor da OTAN, declarações sobre a Groenlândia e o perigo da escalada acidental
O debate sobre o risco de guerra na Europa voltou ao centro das atenções após declarações públicas e uma onda de exercícios militares. Analistas e governos passaram a prever cenários extremos, enquanto a configuração real das forças e episódios isolados apontam para riscos distintos.
Especialistas dizem que, embora exista a possibilidade de conflito, o cenário mais provável não é um ataque em grande escala, e sim uma escalada involuntária, fruto de encontros entre forças opostas. A retórica, por sua vez, contribui para aumentar o clima de tensão e a sensação de iminência.
Nas linhas a seguir, explicamos por que o risco de guerra na Europa é considerado, em grande parte, baixo para um conflito generalizado, e por que a principal preocupação hoje é a escalada acidental, conforme informação divulgada pelo g1
Por que uma guerra em grande escala é considerada improvável
O Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo, Sipri, sinaliza que o panorama militar regional favorece amplamente a OTAN. Segundo o texto consultado, “o equilíbrio militar regional favorece de forma esmagadora a Otan, cujas capacidades militares convencionais combinadas e despesas com a defesa excedem em muito as da Rússia, mesmo excluindo os EUA da comparação”.
Essa diferença de capacidades reduz a probabilidade de um ataque direto que leve a um conflito amplo na Europa. Além disso, eventos políticos, como a reação à sugestão de compra da Groenlândia, mostraram que medidas unilaterais extremas enfrentariam resistência interna e externa, tornando uma invasão real altamente improvável.
O risco real hoje é a escalada acidental
Para o Sipri, o ponto mais relevante e ainda pouco debatido é o de uma escalada acidental. Com o aumento dos exercícios e do patrulhamento, multiplicam-se encontros entre aeronaves e navios da Rússia, de países da OTAN e dos Estados Unidos.
Em situações de alta tensão, um erro técnico, um incidente de interceptação ou uma manobra mal interpretada pode desencadear respostas em cadeia. Nesses casos, o nível de armamento importa menos do que a existência de canais de comunicação eficazes entre forças, para evitar que um acidente se transforme em confronto aberto.
Incidentes recentes que ilustram o risco
Nos últimos meses, houve episódios que mostram como encontros de risco têm ocorrido com frequência. Um caça russo entrou no espaço aéreo da Estônia por 12 minutos, e a Força Aérea britânica interceptou 15 aeronaves russas em apenas seis dias, incluindo um rasante próximo a um navio da Marinha dos Estados Unidos.
No Ártico, os Estados Unidos realizaram exercícios com bombardeiros B-52 próximos à fronteira entre a Finlândia e a Rússia. Esses episódios não equivalem a intenção de guerra em grande escala, mas aumentam as chances de erros e mal-entendidos.
Percepção, exagero e a importância da comunicação
O Sipri alerta para uma distorção recorrente: “Existe uma tendência a superestimar a hostilidade do adversário e subestimar como as nossas próprias ações influenciam a percepção de ameaça”. Essa ideia é antiga, e foi descrita por Robert Jervis no livro “Percepção e Má Percepção na Política Internacional”, publicado na década de 1970.
Quando governos e militares trabalham com os cenários piores, aumentam preparações e alertas, e isso pode retroalimentar cenários mais beligerantes. Por isso, analistas defendem maior ênfase em mecanismos de diálogo, protocolos de interceptação e linhas diretas entre as forças, para reduzir riscos de escalada involuntária.
Em resumo, o risco de guerra na Europa existe, mas é, na avaliação de especialistas citados, pouco provável em sua forma mais ampla. O que tende a persistir é um ambiente de tensão, previsões de cenários extremos e a necessidade de prevenir que incidentes isolados se convertam em crises maiores.