quinta-feira, junho 4, 2026

Como fundos da Reag foram usados para inflar patrimônio do Banco Master, esquema com R$ 450 milhões, títulos superavaliados e investigação por fraude

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PF e Banco Central investigam circulação de recursos entre fundos da Reag que permitiu comprar títulos superavaliados, inflar balanços e devolver capital ao Master em horas

Autoridades federais apuram uma engenharia financeira que, segundo as investigações, fez dinheiro circular entre fundos para criar aparência de liquidez e solidez, e assim mascarar riscos ligados ao Banco Master.

O caso envolve operações rápidas entre fundos administrados pela Reag, empréstimos, compra de títulos antigos e aplicações em CDBs do próprio Master, em movimentos que teriam acontecido em questão de horas.

Os detalhes da operação e as medidas do Banco Central e da Polícia Federal foram divulgados em reportagens recentes, conforme informação divulgada pelo g1.

O mecanismo da fraude

Segundo as apurações descritas pelas autoridades, o Banco Master captava recursos oferecendo CDBs com rendimento acima do mercado, depois financiava um empréstimo de R$ 459 milhões a uma empresa chamada Brain Realty Consultoria.

Em 22 de abril de 2024, a Brain Realty recebeu o empréstimo e, dois dias depois, transferiu quase todo o valor, R$ 450 milhões, para o fundo próprio Brain Cash, administrado pela Reag. Ainda no mesmo dia, o dinheiro passou rapidamente por outros fundos da Reag, como D Mais e High Tower, em operações realizadas em minutos.

O fundo High Tower usou os recursos para comprar títulos antigos do extinto Banco do Estado de Santa Catarina, Besc, que custaram cerca de R$ 850 milhões, mas foram registrados em balanço como valendo mais de R$ 10 bilhões, o que inflou artificialmente o patrimônio e a rentabilidade dos fundos.

Parte desses títulos supervalorizados foi revendida a outros fundos da Reag por valores bilionários, e o montante inicial foi pulverizado entre fundos como Anna, Astralo 95 e Growth 95 ao longo do mesmo dia. Cerca de três horas depois, os fundos aplicaram praticamente todo o valor em CDBs do próprio Banco Master, devolvendo o capital ao banco.

Na avaliação de especialistas citados na investigação, a operação tinha por objetivo criar aparência de boa performance e dificultar o rastreamento do dinheiro. Como afirmou o especialista Beny Fard, “O objetivo financeiro desse desenho seria criar uma aparência de boa performance (liquidez e solidez) dos fundos, além de confundir e dificultar o rastreamento do dinheiro, que passaria por várias camadas de fundos e operações, perdendo o vínculo direto com sua origem e dificultando a identificação de quem se beneficia ao final”.

A liquidação da CBSF e medidas do Banco Central

O Banco Central decretou a liquidação extrajudicial da CBSF Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários, novo nome da Reag Trust DTVM, encerrando imediatamente as atividades da gestora. A decisão foi tomada por descumprimento de regras legais e prudenciais que comprometeram a capacidade de operar de forma segura.

Em nota, a autoridade monetária afirmou que “continuará adotando todas as medidas cabíveis para apurar as responsabilidades”, e que o resultado das apurações “poderá levar à aplicação de medidas sancionadoras de caráter administrativo e ao encaminhamento de comunicações às autoridades competentes.”

O BC também informou que “Nos termos da lei, ficam indisponíveis os bens dos controladores e dos ex-administradores da instituição”, e nomeou a APS Serviços Especializados de Apoio Administrativo Ltda. como liquidante. Os fundos sob gestão da CBSF seguem ativos e deverão buscar novos administradores.

Investigação da Polícia Federal e indícios adicionais

A Polícia Federal apura se a Reag estruturou e administrou fundos que movimentaram recursos de forma atípica, com indícios de fraude e lavagem de dinheiro envolvendo o Banco Master. A investigação já vinha analisando supostas conexões da Reag com a facção criminosa PCC.

Os investigadores apontam ainda o uso de familiares pelos donos do Banco Master e do grupo Reag Investimentos para ocultar o real controle de ativos e fundos. A PF cita que, no caso do Master, familiares de controladores foram alvos da apuração.

Em documento citado na investigação, a Polícia Federal afirma que “tais fatos restaram muito bem elucidados na representação do Banco Central, por meio de fluxograma que demonstra o uso de diversos FIDIC’s para a operacionalização das fraudes no Banco Master, de modo similar ao verificado na representação policial inaugural”.

Impactos e próximos passos

Os desdobramentos podem incluir processos administrativos e comunicações a outras autoridades, além de medidas penais se confirmadas irregularidades. Enquanto isso, os fundos afetados deverão buscar novos administradores para garantir liquidez aos investidores.

O caso expõe vulnerabilidades na supervisão de fundos e a facilidade com que operações entre instituições ligadas podem criar distorções contábeis, prejudicar investidores e dificultar a identificação de beneficiários finais.

Autoridades financeiras e policiais seguem investigando para esclarecer responsabilidades e possíveis crimes financeiros e de lavagem de dinheiro, e o desfecho poderá resultar em sanções e ações judiciais.

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