Queda na criação de vagas, receio da IA e cortes na indústria fomentam a chamada Grande Hesitação, pressionando o futuro do trabalho na zona do euro
Nos últimos anos, o balanço entre empregadores e trabalhadores mudou com rapidez, primeiro a favor dos funcionários, depois em direção à cautela em massa.
Setores industriais em retrocesso, crescimento mais lento do mercado de trabalho e o avanço da inteligência artificial estão mudando decisões de contratação e planos de carreira.
No contexto atual, muitos trabalhadores preferem não arriscar uma troca de emprego, enquanto empresas adiam contratações, conforme informação divulgada pelo g1
Ritmo de emprego e números que explicam a desaceleração
O Banco Central Europeu, o BCE, projeta que o mercado de trabalho da zona do euro deve crescer 0,6% este ano, em comparação com 0,7% em 2025, segundo o BCE.
Cada diferença de 0,1 ponto percentual equivale a cerca de 163 mil novos empregos a menos, e há três anos a zona do euro chegou a criar cerca de 2,76 milhões de vagas, quando o crescimento era mais robusto.
A migração líquida, que ajudou a aliviar escassez de mão de obra, está atualmente se estabilizando ou diminuindo, pressionando ainda mais a oferta de trabalhadores qualificados.
Problemas específicos na Alemanha e sinais de enfraquecimento
Na Alemanha, desafios industriais pesam forte, com setores automotivo, de máquinas, metalúrgico e têxtil entre os mais afetados, segundo dados do governo.
O recuo da atividade externa, altos custos de energia e concorrência global contribuiram para a perda de mais de 120 mil postos de trabalho na base industrial, e o think tank IW indica que mais de uma em cada três empresas planeja cortar empregos este ano.
Em outros países, há sinais mistos, o Banco da França espera que o desemprego suba para 7,8%, e no Reino Unido, dois terços dos economistas consultados pelo jornal The Times apontam para possibilidade de alta do desemprego para 5,5%, ante os atuais 5,1%.
Setores com demanda, e o surgimento da “Grande Hesitação”
Apesar do arrefecimento geral, ainda há fortes demandas por profissionais em áreas como varejo, saúde, logística, engenharia e funções altamente especializadas, segundo especialistas do setor.
O fenômeno apelidado de “Grande Hesitação” descreve empresas que pensam duas vezes antes de contratar, e trabalhadores que evitam deixar empregos estáveis, optando por preparar discretamente um plano B diante da incerteza.
Angelika Reich, consultora de liderança, observa que o mercado de trabalho europeu “esfriou“, e que “menos vagas de emprego e um clima econômico mais difícil naturalmente tornam os funcionários mais cautelosos em relação a mudar de emprego“, segundo reportagem da Deutsche Welle.
O papel da inteligência artificial no futuro do trabalho
A adoção de IA na Europa é mais lenta que nos Estados Unidos e na China, por conta de investimentos menores, regulamentações mais rígidas e implementação tardia, mas o receio entre trabalhadores persiste.
Um estudo da consultoria EY apontou que um quarto dos trabalhadores europeus teme que a IA possa colocar seus empregos em risco, enquanto 74% acreditam que as empresas precisarão de um quadro de funcionários menor como resultado da tecnologia, segundo a pesquisa.
O Instituto de Pesquisa de Emprego IAB projetou que 1,6 milhão de empregos na Alemanha poderão ser remodelados ou perdidos para a IA até 2040, embora o relatório também destaque que a tecnologia pode criar cerca de 110 mil novos postos no setor de tecnologia.
John Springford, especialista citado pela reportagem, afirma que “Muitas tarefas árduas podem ser transferidas para a IA para liberar mão de obra humana“, sinalizando uma possível redistribuição de funções, e não necessariamente uma eliminação total de profissões.
O que muda para trabalhadores e empresas
A desaceleração nas contratações e a pressão da IA sinalizam que muitos profissionais vão priorizar segurança e preparo, investindo em qualificação e planos alternativos para proteger trajetórias.
Para empresas, o desafio será equilibrar cortes pontuais e readequações, com comunicação clara, e oferta de oportunidades atraentes para evitar perda de talentos, sobretudo entre os jovens, que já demonstram menor interesse por setores como o automotivo.
O cenário na Europa, portanto, combina setores ainda com forte demanda, economias em ajuste, e uma transformação tecnológica que tende a moldar o futuro do trabalho nos próximos anos, com impactos distintos por país e setor.