Com redução de tarifas e regras comuns, o Acordo UE-Mercosul aproxima cadeias produtivas, expõe dependência tecnológica do Brasil e sua centralidade frente a Argentina, Uruguai e Paraguai
O acordo entre União Europeia e Mercosul, assinado após mais de 25 anos de negociações, promete reduzir ou eliminar gradualmente tarifas e estabelecer regras comuns para bens, investimentos e padrões regulatórios.
Embora abra oportunidades para integrar cadeias produtivas estratégicas entre continentes, o tratado também revela uma relação econômica assimétrica, com o Brasil ocupando posição central e os demais parceiros do Mercosul em papel secundário.
De acordo com dados da Comissão Europeia, o Brasil responde por mais de 82% de todas as importações europeias originadas no Mercosul e por cerca de 79% das exportações do bloco sul-americano destinadas ao velho continente, conforme informação divulgada pelo g1.
Por que o Brasil virou o centro da relação
A escala da economia brasileira e a composição de sua pauta exportadora explicam a centralidade do país no Acordo UE-Mercosul. Para a União Europeia, o Brasil é fornecedor de insumos básicos e matérias-primas estratégicas, itens essenciais às cadeias industriais e ao abastecimento energético e alimentar do continente.
Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, em 2025 o Brasil exportou para a UE US$ 49,81 bilhões, sendo que 73% desse total tiveram como destino cinco países, com destaque para a Holanda, US$ 11,7 bilhões (23,6%), a Espanha, US$ 8,8 bilhões (17,7%), e a Alemanha, US$ 6,5 bilhões (13,1%).
Entre os principais produtos exportados por Brasil à UE estão óleo bruto de petróleo, US$ 9,8 bilhões, café não torrado, US$ 7,1 bilhões, farelo de soja, US$ 4 bilhões, minérios de cobre, US$ 3 bilhões, celulose, US$ 2,1 bilhões, e minério de ferro, US$ 1,1 bilhão, dados que mostram a ênfase em commodities e insumos industriais.
De quem o Brasil depende e o que isso muda
O Brasil também depende da UE para bens de maior valor tecnológico. Em 2025, as importações brasileiras da União Europeia somaram US$ 50,3 bilhões, concentradas em poucos parceiros: Alemanha, US$ 14,4 bilhões (28,6%), França, US$ 7,2 bilhões (14,3%), e Itália, US$ 7,1 bilhões (14%).
A composição dessas importações evidencia dependência em medicamentos e tecnologia, com itens como medicamentos e produtos farmacêuticos, US$ 8,1 bilhões, autopeças, US$ 2,5 bilhões, motores e máquinas não elétricas, US$ 2,4 bilhões, aeronaves, US$ 1,2 bilhão, equipamentos de medição, verificação e controle, US$ 1,4 bilhão, e compostos químicos, US$ 1,41 bilhão.
O efeito prático tende a ser a redução de custos de produção no Brasil com a retirada de tarifas, especialmente sobre insumos importados. Na avaliação de José Pimenta, diretor de Comércio Internacional e sócio da BMJ Consultoria, a tributação atual eleva significativamente o preço final: “Em alguns casos, o produto chega a pagar 35% ou 40% sobre o valor. Um insumo que custa R$ 100 mil pode chegar a R$ 140 mil na mão do produtor. Com a retirada das tarifas, esse mesmo fertilizante poderia chegar por algo em torno de R$ 100 mil.“
Assimetrias regionais e implicações políticas
A negociação em bloco, no entanto, não apaga assimetrias internas do Mercosul. Conforme a cobertura do g1, Argentina, Uruguai e Paraguai tendem a ocupar posição secundária, porque, na prática, a UE conduziu a negociação a partir da relação com o Brasil.
Em 2024, as exportações brasileiras ao bloco europeu foram quase cinco vezes maiores que as argentinas, que somaram US$ 8,5 bilhões, o que ilustra a distância entre os dois maiores parceiros sul-americanos no comércio com a UE.
O Uruguai tem mostrado crescimento e previsibilidade institucional, com as exportações da UE para o país avançando de US$ 418 milhões para US$ 2,1 bilhões em pouco mais de duas décadas, mas enfrenta limitações técnicas para atender às exigências ambientais do bloco europeu. O Paraguai, com peso comercial reduzido, registrou em 2024 exportações da UE para o país de US$ 994 milhões, enquanto as importações ficaram em US$ 416 milhões, segundo o g1.
O que muda na prática e os pontos de atenção
Na prática, o Acordo UE-Mercosul pode baratear insumos, ampliar mercados para commodities brasileiras e fortalecer a diversificação europeia de fornecedores, diante de tensões geopolíticas. Ao mesmo tempo, preservação ambiental, padrões regulatórios e capacidade técnica dos países menores do Mercosul serão pontos centrais nas próximas etapas de implementação.
Além de convergências comerciais, o acordo expõe uma troca em que o Brasil fornece energia e alimentos, enquanto depende de tecnologia europeia, consolidando sua posição de eixo no relacionamento entre os blocos, conforme informação divulgada pelo g1.