Isolamento da agência, atrasos recorrentes e falta de prestação de contas levaram o casal a cruzar comprovantes, reunir documentos e acionar o Ministério Público
Dois influenciadores que comandam o perfil 2depais relatam ter descoberto um rombo de R$ 500 mil ao confrontar comprovantes de pagamento enviados por marcas com os relatos da agência que os representava.
Segundo o casal, o contrato dava à agência controle total sobre negociações e repasses, enquanto eles eram orientados a não manter contato direto com marcas ou colegas de profissão.
As informações foram prestadas em entrevista, e o caso ganhou desdobramentos jurídicos e repercussão nas redes sociais, conforme informação divulgada pelo g1.
Como o rombo foi descoberto
O casal relata que, diante de atrasos frequentes, começou a criar sua própria planilha para registrar campanhas, prazos e valores. Ao entrar em contato direto com anunciantes, receberam comprovantes que mostravam pagamentos já quitados, em muitos casos há meses, contrariando a versão da agência.
Os influenciadores afirmam que o contrato obrigava a Hello Group a receber pagamentos, emitir notas fiscais e repassar 70% aos criadores, ficando a agência com 30% de comissão, e que o rombo ultrapassa os R$ 500 mil. A descoberta foi gradual, e um primeiro comprovante, enviado por e-mail, mostrou que uma campanha havia sido paga cinco ou seis meses antes, enquanto a agência dizia não ter recebido.
O que o contrato permitia e os sinais de alerta
Segundo o relato, o acordo firmado em 2021 concedia exclusividade à agência para fechar campanhas, conversar com marcas, assinar contratos, emitir notas fiscais, receber pagamentos e repassar valores, com desconto de 30%.
Os influenciadores dizem que, com o tempo, a agência passou a restringir ainda mais o contato deles com terceiros, usando justificativas como proteção da imagem. Expressões relatadas na entrevista incluem, literalmente, “Era sempre assim, ‘nunca conte qual é o seu trabalho, quanto você está ganhando, nunca fale com as pessoas, porque isso vai te derrubar'” e “Deixa que eu tomo conta de tudo, eu resolvo tudo”.
Especialistas consultados na reportagem destacam que cláusulas que impedem totalmente o contato com marcas, falta de relatórios e resistência em fornecer documentos são sinais de alerta e podem ferir princípios de razoabilidade e boa-fé.
Consequências financeiras e conflitos judiciais
Sem repasses, o casal afirma que precisou emitir notas fiscais sem ter recebido os valores correspondentes, o que os levou a dívidas fiscais e ao parcelamento de mais de R$ 40 mil. A situação também afetou a saúde e o bem-estar, com um dos integrantes relatando desenvolvimento de uma doença autoimune associada ao estresse.
Com a documentação reunida, eles buscaram um advogado e levaram o caso ao Ministério Público, apontando possibilidade de apropriação indébita majorada. A ação solicitou bloqueio de bens da agência e prestação de contas.
Em decisão, o juiz Caio Hunnicutt Fleury Moraes entendeu não haver provas suficientes para determinar depósito judicial e bloqueio de valores da empresa, mas determinou que uma patrocinadora, com contrato de R$ 42 mil com a agência, pague a parte dos influenciadores diretamente a eles.
Recomendações de especialistas para influenciadores
A advogada Mayra Mega Itaborahy, especialista em direito digital, orienta que contratos contenham cláusulas claras de transparência financeira, limites ao poder da agência, autorização prévia e por escrito para acordos, além de acesso integral a contratos assinados em nome do criador.
Itaborahy recomenda prazos definidos para repasses, multas por atraso, possibilidade de rescisão em caso de falta de prestação de contas e modelos que prevejam repasses diretos ao influenciador, contas de garantia ou pagamentos separados. Ela lembra que atraso no repasse caracteriza inadimplência e, em casos graves, pode configurar crime de apropriação indébita, previsto no artigo 168 do Código Penal.
O caso do rombo de R$ 500 mil pelos quais acusam a Hello Group serve como alerta para criadores, agências e anunciantes, ressaltando a importância de contratos claros, documentação organizada e checagens diretas sempre que houver dúvidas sobre pagamentos.