Investigação aponta que agência Hello Group, com contrato que dava exclusividade e 30% de comissão, deixou influenciadores sem repasses e gerou prejuízo superior a R$ 500 mil
Gustavo Catunda e Robert Rosselló, responsáveis pelo perfil 2depais, dizem ter descoberto um rombo financeiro após cruzar comprovantes enviados por marcas com os relatórios que a agência apresentava.
Segundo o casal, o contrato dava à agência controle total sobre negociações, emissão de notas e repasses, enquanto eles eram orientados a evitar qualquer contato externo, sob o argumento de preservar a imagem.
Com atrasos recorrentes e ausência de prestação de contas, os influenciadores organizaram documentos próprios e concluíram que o prejuízo ultrapassa R$ 500 mil, o que motivou ação ao Ministério Público.
conforme informação divulgada pelo g1
Como os influenciadores descobriram o rombo
Durante meses, atrasos foram apresentados como pontuais, acompanhados de explicações sobre mercado difícil e burocracia. A comunicação financeira ficava exclusivamente com a Hello Group, e as etapas de pagamento ficavam ocultas, dizem Gustavo e Robert.
Sem acesso a contratos e sem relatórios, o casal passou a manter sua própria planilha para registrar campanhas, prazos e valores. Ao contatar diretamente algumas marcas, receberam comprovantes que mostravam pagamentos feitos meses antes, o que contrastava com as informações da agência.
Um episódio marcou a descoberta, quando eles receberam, no caminho para o hospital com a filha, o primeiro comprovante que mostrava um pagamento quitado cinco ou seis meses antes, justamente da campanha que a agência dizia estar em atraso. Foi ali que a ficha caiu, contam os dois.
Termos do contrato e indícios de apropriação
O acordo firmado previa que 70% do valor das campanhas seriam repassados aos influenciadores, enquanto a agência ficaria com 30% de comissão. Ainda assim, os pagamentos feitos pelas marcas chegaram às contas da agência e não foram integralmente repassados ao casal.
Com a documentação reunida, o advogado dos influenciadores apresentou o caso ao Ministério Público, apontando que a situação pode configurar apropriação indébita majorada, quando alguém recebe dinheiro em nome de outra pessoa e não o repassa. O bloqueio de bens e a prestação de contas foram solicitados.
Em decisão provisória, o juiz Caio Hunnicutt Fleury Moraes entendeu que não havia provas suficientes para determinar depósito judicial e bloqueio de valores da empresa, mas ordenou que uma patrocinadora com contrato de R$ 42 mil pague diretamente aos influenciadores a parte devida.
Consequências pessoais e financeiras
Além da perda financeira estimada em mais de R$ 500 mil, Gustavo e Robert relataram impactos na vida pessoal. Sem receber, precisaram emitir notas fiscais sem ter recebido o montante, o que levou ao parcelamento de mais de R$ 40 mil em impostos.
O estresse do processo, afirmam, desencadeou problemas de saúde, incluindo uma doença autoimune atribuída ao desgaste emocional, e sentimentos de insegurança e desconfiança em relação ao mercado e às pessoas ao redor.
Segundo o casal, depois que o caso ganhou repercussão, outros criadores os procuraram relatando problemas semelhantes com a mesma agência, o que sugere que não se trata de um episódio isolado.
Cuidados contratuais e prevenção para influenciadores
Especialistas em direito digital recomendam cláusulas claras de transparência financeira, limitação do poder de gestão da agência, autorização prévia por escrito do influenciador para acordos e acesso a todos os contratos firmados em nome do criador.
A advogada ouvida disse que, mesmo quando a agência negocia sozinha, ela deve apresentar contratos, comprovantes de pagamento e prestações de contas sempre que solicitado, sob pena de aumentar o risco de retenções indevidas.
Modelos mais seguros incluem repasses diretos ao influenciador, contas de garantia ou pagamentos separados, além de cláusulas sobre prazos, juros, multas e rescisão. Exclusividade excessiva, falta de relatórios e resistência em fornecer documentos são sinais de alerta.
Manter organização de contratos, comprovantes e registros escritos, afirmam especialistas, é essencial, pois esses documentos são provas fundamentais em disputas judiciais ou administrativas.
Para influenciadores que desconfiem de irregularidades, a recomendação é reunir provas, consultar um advogado e, se necessário, levar o caso ao Ministério Público ou à Justiça para buscar bloqueio de valores e prestação de contas, medidas que podem ser solicitadas conforme o caso.