Investigação aponta atrasos, isolamento e falta de prestação de contas, influenciadores cruzaram comprovantes e identificaram o rombo de R$ 500 mil
Dois criadores por trás do perfil 2depais contaram como descobriram que valores de campanhas não lhes foram repassados, apesar de constarem como pagos pelas marcas.
Os influenciadores relatam que o contrato dava à agência controle total sobre negociações e repasses, enquanto eram orientados a evitar qualquer contato externo.
Os fatos foram relatados pelos criadores e apurados, conforme informação divulgada pelo g1.
Como a descoberta ocorreu e o que os documentos mostram
Segundo o relato, a parceria com a agência Hello Group começou em 2021, com promessa de profissionalizar o trabalho do casal e gerir contratos e pagamentos.
O contrato estabelecia que 70% do valor das campanhas iriam para os influenciadores, enquanto a agência ficaria com 30% de comissão. Com o tempo, atrasos recorrentes e falta de comprovantes fizeram o casal montar uma planilha própria para acompanhar campanhas.
Ao procurar diretamente as marcas e cruzar comprovantes, os influenciadores concluíram que, apesar de a agência alegar não ter recebido pagamentos, as empresas já haviam quitado as campanhas, e o rombo ultrapassa os R$ 500 mil.
Relatos de isolamento, exemplos e consequências
Os criadores disseram que recebiam orientações para não falar com marcas, nem comparar valores com colegas, sempre sob a justificativa de proteger a imagem. Um dos trechos citados foi, “nunca conte qual é o seu trabalho, quanto você está ganhando, nunca fale com as pessoas, porque isso vai te derrubar”.
Outra frase relatada no depoimento foi, “Deixa que eu tomo conta de tudo, eu resolvo tudo”. Sem acesso às etapas financeiras, os atrasos passaram a se repetir e, em algumas campanhas fechadas em novembro, os pagamentos ainda não haviam sido repassados no início de 2025.
O casal narra o impacto pessoal e financeiro, incluindo emissão de notas fiscais sem o dinheiro correspondente, débitos de impostos e parcelamentos superiores a R$ 40 mil. Também relataram impactos na saúde e na confiança social.
Ação judicial, decisão e desfecho temporário
Com a documentação reunida, os influenciadores procuraram um advogado e levaram o caso ao Ministério Público, apontando possibilidade de apropriação indébita majorada.
Em decisão desta segunda-feira (19), porém, o juiz Caio Hunnicutt Fleury Moraes considerou que não havia provas suficientes e negou o depósito judicial e o bloqueio de valores da empresa, mas determinou que uma patrocinadora com contrato de R$ 42 mil com a agência pague a parte dos influenciadores diretamente a eles.
Cuidados contratuais e recomendações de especialista
Ouvida pelo g1, a advogada Mayra Mega Itaborahy, especialista em direito digital, afirmou que cláusulas claras de transparência financeira são essenciais para reduzir riscos e evitar retenções indevidas de valores.
Ela destaca pontos básicos que devem constar em contratos entre influenciadores e agências, entre eles:
- Limitar o poder da agência,
- Exigir autorização prévia e por escrito do influenciador para qualquer acordo,
- Garantir que o criador tenha acesso a todos os contratos feitos em seu nome, com valores, prazos e obrigações,
A especialista ressaltou que, mesmo quando a agência negocia sozinha, deve apresentar contratos, comprovantes de pagamento e prestações de contas detalhadas sempre que solicitado. Segundo ela, “São contratos específicos, que podem gerar prejuízos e afetar a reputação do criador”.
Itaborahy também alertou que o atraso no repasse caracteriza inadimplência e pode gerar juros e multa, e que, em casos mais graves, a situação pode configurar crime de apropriação indébita, previsto no artigo 168 do Código Penal. Ela salientou que “Contratos, comprovantes e registros escritos são provas essenciais em disputas”.
O que aprender e como se proteger
O caso envolvendo 2depais e a Hello Group expõe sinais de alerta que influenciadores e contratantes devem observar: exigência de transparência, proibições totais de contato com marcas, falta de relatórios e resistência em fornecer documentos são indícios de risco.
Modelos de segurança apontados incluem repasses diretos ao influenciador, uso de contas de garantia, ou mecanismos que permitam ao criador verificar pagamentos e contratos, reduzindo chances de retenção indevida e prejuízos.
Enquanto o processo segue, o episódio serve como alerta para criadores de conteúdo organizarem documentos, pedir cláusulas claras e manter contato direto com anunciantes sempre que possível.