Agência cobrava 30% de comissão, impôs isolamento dos criadores, e ao cruzar comprovantes o casal encontrou pagamentos que não foram repassados, gerando prejuízo
Dois criadores conhecidos pelo perfil 2depais relatam que descobriram um rombo de R$ 500 mil ao confrontar comprovantes enviados por marcas com os repasses que a agência dizia não ter recebido.
Segundo o relato, a empresa que os representava assumiu total controle das negociações e das finanças, e orientava os influenciadores a não contatar as marcas nem colegas, sob o argumento de proteger a imagem.
O caso foi levado a um advogado e ao Ministério Público, após a dupla reunir documentos que apontavam valores pagos às empresas e não repassados a eles, conforme informação divulgada pelo g1.
Como o rombo foi descoberto
O casal, que soma mais de 2,5 milhões de seguidores, afirma que o contrato dava à agência exclusividade para fechar campanhas, emitir notas fiscais, receber pagamentos e repassar ao 2depais 70% dos valores, ficando a agência com 30%.
Com atrasos recorrentes e sem prestação de contas, os influenciadores criaram uma planilha para controlar campanhas, datas e valores, e notaram inúmeras divergências entre o que a agência dizia e os comprovantes das marcas.
Ao contatar diretamente as empresas, receberam comprovantes que mostravam pagamentos feitos meses antes, e descobriram que a agência havia sido quitada, enquanto os repasses prometidos não haviam sido realizados.
Segundo o relato, orientações como “nunca conte qual é o seu trabalho, quanto você está ganhando, nunca fale com as pessoas, porque isso vai te derrubar” e “Deixa que eu tomo conta de tudo, eu resolvo tudo” dificultaram checagens independentes.
Impactos financeiros e pessoais
Os influenciadores afirmam que o suposto rombo ultrapassa os R$ 500 mil, e que, sem o repasse, precisaram emitir notas fiscais sem o dinheiro correspondente, o que gerou dívidas fiscais e um parcelamento de mais de R$ 40 mil.
A situação também afetou a saúde e o cotidiano da família, com Robert relatando desenvolvimento de uma doença autoimune ligada ao estresse, e momentos de grande tensão, como quando “Nossa filha estava com meningite (…) ela estava passando mal”.
Após a divulgação do caso nas redes sociais, outros criadores teriam contado ter enfrentado problemas semelhantes com a mesma agência, segundo o relato dos afetados.
Decisão judicial e repercussão
Com a documentação reunida, o advogado do casal apresentou o caso ao Ministério Público, apontando possibilidade de configurar apropriação indébita majorada, quando alguém recebe dinheiro em nome de outra pessoa e não o repassa.
Em decisão citada na cobertura, “o juiz Caio Hunnicutt Fleury Moraes considerou que não havia provas suficientes e negou o depósito judicial e o bloqueio de valores da empresa, mas determinou que uma patrocinadora com contrato de R$ 42 mil com a agência pague a parte dos influenciadores diretamente a eles”.
Até a última atualização da reportagem, a agência procurada pelo g1 não havia se posicionado publicamente sobre as acusações.
Como evitar problemas semelhantes, segundo especialista
A advogada Mayra Mega Itaborahy, consultada na matéria, destaca que cláusulas de transparência financeira são essenciais, e recomenda limitar o poder da agência, exigir autorização prévia por escrito para acordos, e garantir acesso a todos os contratos firmados em nome do influenciador.
Ela afirma que, mesmo quando a agência negocia sozinha, deve apresentar contratos, comprovantes de pagamento e prestações de contas detalhadas sempre que solicitado, para reduzir riscos de retenção indevida.
Itaborahy alerta que o atraso no repasse caracteriza inadimplência e pode gerar juros e multa, e que, em situações mais graves, “pode configurar crime de apropriação indébita (art. 168 do Código Penal)”.
Ela resume, “São contratos específicos, que podem gerar prejuízos e afetar a reputação do criador”, e lembra que “Contratos, comprovantes e registros escritos são provas essenciais em disputas”.
O que fica como lição
O episódio reforça a necessidade de contratos claros, repasses transparentes e organização documental por parte de criadores de conteúdo, para evitar que a falta de prestação de contas gere prejuízos financeiros e danos pessoais.
Manter cópias de contratos, exigir relatórios periódicos, e, quando possível, privilegiar modelos de pagamento direto ao influenciador ou contas de garantia são medidas práticas recomendadas por especialistas para mitigar riscos.
O caso segue repercutindo nas redes e acendeu alerta entre outros profissionais do mercado, que passam a questionar práticas de exclusividade e falta de transparência em parcerias entre influenciadores e agências.