Investigação do rombo de R$ 500 mil aponta isolamento imposto pela agência, atrasos recorrentes, falta de prestação de contas e recomendações contratuais para criadores
Um casal de influenciadores afirma ter descoberto um rombo de R$ 500 mil após cruzar comprovantes enviados por marcas com informações que a agência dizia não ter recebido.
Segundo o relato, o contrato dava à agência controle total sobre negociações e repasses, enquanto os criadores eram orientados a evitar contato direto com marcas e colegas, em nome de um suposto cuidado com a imagem.
Com documentos em mãos, o casal procurou um advogado e levou o caso ao Ministério Público, um movimento que despertou repercussão nas redes sociais, conforme informação divulgada pelo g1.
Como o casal percebeu o prejuízo
Os responsáveis pelo perfil 2depais, com mais de 2,5 milhões de seguidores, relataram que, no início, a parceria com a Hello Group parecia funcionar, mas os atrasos nas remunerações passaram a ser constantes.
Os influenciadores contam que receberam orientações como, “nunca conte qual é o seu trabalho, quanto você está ganhando, nunca fale com as pessoas, porque isso vai te derrubar”, e que a agência dizia, “Deixa que eu tomo conta de tudo, eu resolvo tudo”, forçando um isolamento que impedia checagens diretas.
Ao criar uma planilha própria e pedir comprovantes às marcas, eles descobriram que pagamentos que a agência dizia não ter recebido, na verdade, já haviam sido quitados meses antes, e, segundo os influenciadores, “o rombo ultrapassa os R$ 500 mil”.
Consequências financeiras e saúde
Sem os repasses, o casal precisou emitir notas fiscais sem receber o dinheiro correspondente, o que gerou débito tributário e o parcelamento de mais de R$ 40 mil, de acordo com o relato.
Além dos prejuízos financeiros, os influenciadores relatam impacto na vida pessoal, incluindo estresse e problemas de saúde, e disseram ter sido procurados por outros criadores que relataram situações parecidas, o que para eles indica que não se trata de caso isolado.
O caso foi levado ao Judiciário, mas o juiz considerou não haver provas suficientes para determinar depósito judicial e bloqueio de valores da agência, porém, determinou que uma patrocinadora com contrato de R$ 42 mil pague a parte dos influenciadores diretamente a eles.
Riscos contratuais, crime e recomendações legais
Conforme especialistas ouvidos pelo g1, contratos entre influenciadores e agências devem prever cláusulas de transparência financeira, com acesso a contratos, comprovantes de pagamento e prestação de contas detalhada.
A advogada Mayra Mega Itaborahy alerta que cláusulas que limitam o contato do criador com marcas são sinais de alerta, e que o atraso no repasse pode configurar inadimplência e juros, além de, em casos mais graves, configurar crime de apropriação indébita, previsto no artigo 168 do Código Penal.
Itaborahy recomenda medidas como limitar poderes da agência, exigir autorização prévia por escrito para acordos, garantir acesso a contratos com valores e prazos, e privilegiar modelos de pagamento seguros, por exemplo repasses diretos ao influenciador ou uso de contas de garantia.
Sinais de alerta e passos práticos para criadores
Entre práticas de proteção, especialistas indicam manter registro próprio de campanhas, exigir relatórios periódicos, solicitar comprovantes de pagamento das marcas e reservar cláusulas contratuais que prevejam prazos, multa e rescisão clara.
Sinais de alerta incluem exclusividade excessiva, recusa em apresentar documentos, ausência de prestação de contas e orientação para evitar qualquer contato com marcas ou colegas, pontos que, segundo o casal, marcaram a relação com a Hello Group.
Para influenciadores, a lição central é clara, manter organização de contratos, comprovantes e registros escritos, porque “contratos, comprovantes e registros escritos são provas essenciais em disputas”, e isso ajuda a reduzir o risco de prejuízos semelhantes no futuro.