Pressões políticas sobre a independência dos bancos centrais em distintos países expõem riscos à estabilidade de preços e ao crescimento econômico
Em debates recentes, a discussão sobre a independência dos bancos centrais voltou ao centro do debate público, depois da tentativa do presidente dos Estados Unidos de remover uma dirigente do Fed.
Especialistas lembram que interferências políticas em bancos centrais tendem a elevar a inflação e prejudicar a economia no longo prazo.
O texto a seguir analisa exemplos históricos e recentes em cinco países, mostrando impactos e lições para formuladores de política econômica, conforme informação divulgada pelo g1
Estados Unidos, Trump e o Fed
Nos EUA, a capacidade do Federal Reserve de conduzir a política de juros sem interferência é vista como essencial para a credibilidade da autoridade monetária.
No caso atual, “No caso de Cook, apesar de os votos dela nas decisões de juros estarem no pano de fundo da ofensiva de Trump, a iniciativa se apoia em acusações não comprovadas de fraude hipotecária”, afirma a matéria, citando a controvérsia em torno da diretora do Fed, Lisa Cook.
Historicamente, presidentes americanos já tentaram influenciar o Fed, com exemplos que marcaram décadas, como as pressões de Richard Nixon sobre Arthur Burns na década de 1970, e a reação dura do Fed sob Paul Volcker, que elevou os juros para dois dígitos para domar a inflação.
Turquia, cortes forçados e consequências
Na Turquia, o presidente Recep Tayyip Erdogan, que se autodeclara inimigo dos juros, demitiu quatro dirigentes do banco central entre 2019 e 2023 por discordâncias sobre política monetária.
O resultado das intervenções foi adverso, com disparada da inflação e colapso da lira, elevando o custo de vida para famílias, segundo a reportagem.
Em 2023, Erdogan nomeou Hafize Gaye Erkan, que “elevou rapidamente a taxa básica de juros de 8,5% para 45%”; seu sucessor, Fatih Karahan, apertou ainda mais a política monetária antes de iniciar um alívio, e “a inflação recuou do pico de 85% no fim de 2022, mas segue em dois dígitos”.
Argentina, nacionalização e ciclos de crise
A Argentina oferece um exemplo de longo prazo, com a nacionalização do banco central por Juan Perón em 1946, que inaugurou décadas de uso do banco para financiar gastos públicos.
Esse padrão levou a sucessivas ondas de inflação elevada e episódios de hiperinflação, e teve episódios recentes de presidentes do banco central sendo afastados por divergências com o governo.
Entre esses episódios, a matéria lembra que Martín Redrado foi demitido em 2010 por se recusar a usar reservas para pagar dívidas, demonstrando como conflitos entre governo e autoridade monetária podem gerar instabilidade.
Venezuela e Zimbábue, lições extremas de emissão monetária
A Venezuela, apesar de previsões constitucionais de independência e proibição de financiamento direto do déficit, viu o Executivo assumir controle quase total do banco central.
Após a queda do petróleo em 2014, o banco central venezuelano passou a emitir moeda para cobrir déficits, alimentando uma hiperinflação que atingiu o pico em 2018, estimada por alguns cálculos em “mais de 1.000.000%”.
No Zimbábue, emissões monetárias para financiar gastos do governo sob Robert Mugabe também provocaram hiperinflação extrema, e em janeiro de 2009 o então presidente do banco central, Gideon Gono, emitiu uma cédula de “100 trilhões de dólares”.
O que as experiências mostram
Decisões de governos que enfraquecem a independência dos bancos centrais costumam reduzir a credibilidade da política monetária, tornando mais difícil controlar a inflação sem custos econômicos altos.
Estudos citados pela reportagem apontam que quando bancos centrais se alinham a preferências políticas, os resultados costumam ser piores, com inflação mais elevada e crescimento econômico mais lento.
Por outro lado, episódios de retorno à independência, como o endurecimento do Fed sob Paul Volcker, mostram que restauração de credibilidade pode controlar a inflação, ainda que com custos iniciais, como recessões.
Governos e autoridades monetárias enfrentam, portanto, o desafio de equilibrar responsabilidade fiscal, autonomia técnica e pressão política, para que a busca por objetivos de curto prazo não comprometa a estabilidade de preços no longo prazo.