quinta-feira, junho 4, 2026

Por que a independência dos bancos centrais está em xeque, do Fed à Turquia, Argentina, Venezuela e Zimbábue, e como a pressão política pode elevar a inflação

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Casos históricos e recentes mostram riscos à estabilidade de preços, incluindo tentativa contra diretora do Fed, demissões na Turquia e episódios de hiperinflação

A independência dos bancos centrais é considerada essencial para manter a inflação sob controle e garantir decisões de juros baseadas em critérios técnicos.

Quando políticos tentam influenciar essas instituições, estudos mostram que os resultados tendem a ser piores, com inflação mais elevada e crescimento econômico mais lento.

Este texto reúne exemplos em cinco países para explicar por que a independência dos bancos centrais importa, conforme informação divulgada pelo g1.

EUA, o Fed e tentativas de pressão presidencial

Nos Estados Unidos, embora nenhum dirigente do Fed tenha sido demitido por não atender às exigências de um presidente sobre juros, líderes já tentaram exercer influência de outras formas.

O ex-presidente Richard Nixon pressionou o então presidente do Fed, Arthur Burns, a manter os custos de empréstimos baixos, apesar da rápida alta dos preços, para ajudá-lo a vencer a reeleição em 1972, segundo relatos históricos.

O episódio é visto como ponto de partida de um surto inflacionário que só foi contido por Paul Volcker, que elevou os juros para dois dígitos, medidas que restauraram a credibilidade do Fed, mesmo levando o país à recessão.

Turquia, demissões e consequências inflacionárias

O presidente turco, Tayyip Erdogan, que se autodeclara um “inimigo dos juros”, demitiu quatro dirigentes do banco central entre 2019 e 2023 por elevarem os custos de empréstimos ou resistirem aos cortes que ele exigia.

O efeito foi o oposto do esperado, a inflação disparou, a lira entrou em colapso, e famílias passaram a ter dificuldade para arcar com itens básicos, como aluguel e alimentação.

Em 2023, Erdogan nomeou Hafize Gaye Erkan, que elevou rapidamente a taxa básica de juros de 8,5% para 45%, e seu sucessor, Fatih Karahan, apertou ainda mais a política antes de iniciar, recentemente, um alívio.

A inflação recuou do pico de 85% no fim de 2022, mas segue em dois dígitos, mostrando que choques de confiança podem deixar efeitos duradouros.

Argentina e Venezuela, lições de perda de autonomia

Na Argentina, a nacionalização do banco central por Juan Perón, em 1946, colocou o país em trajetória de crises recorrentes, com impressão de moeda para financiar gastos e sucessivas ondas de inflação e hiperinflação.

Desde 2000, dos 14 presidentes do BC, vários foram afastados por divergências com o governo, incluindo Martín Redrado, demitido em 2010 por se recusar a executar plano de uso de reservas, segundo relatos.

Na Venezuela, mesmo com a Constituição garantindo certo grau de independência, leis colocaram o banco central sob controle total do Executivo, com direção indicada exclusivamente pelo presidente.

Após a queda dos preços do petróleo em 2014, o banco central passou a emitir moeda para financiar déficits elevados, alimentando uma hiperinflação que atingiu o pico em 2018, estimada por alguns cálculos em mais de 1.000.000%, conforme registros de especialistas.

Zimbábue, o extremo da emissão e a nota de 100 trilhões

No Zimbábue, o banco central também emitiu moeda para financiar gastos do governo de Robert Mugabe, incluindo despesas eleitorais e transferências para entidades estatais, segundo o FMI.

A hiperinflação atingiu níveis extremos e, em janeiro de 2009, o então presidente do banco central, Gideon Gono, emitiu uma cédula de 100 trilhões de dólares, símbolo do colapso monetário do país.

Esses casos mostram que a perda da independência dos bancos centrais tende a corroer a confiança, elevar a inflação, e gerar custos sociais elevados, enquanto medidas que restauram credibilidade podem ser dolorosas, porém eficazes.

Entender essas experiências ajuda a avaliar episódios atuais, como a tentativa de demissão no Fed, e a medir os riscos quando governos pressionam decisões técnicas em políticas monetárias.

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